O exílio de Paulo de Tarso Santos

Paulo Freire (esq.), ao lado do ex-ministro. Amigos exilados no Chile...

Paulo Freire (esq.), ao lado do ex-ministro. Amigos exilados no Chile…

Que conste nos autos. O ex-prefeito de Brasília e ex-ministro da cultura de João Goulart, Paulo de Tarso Santos, foi o primeiro asilado brasileiro acolhido pelo Chile. Isso quem conta é o seu filho Vasco Santos na biografia, Meu amigo Paulo de Tarso. “Ficou sozinho, num casarão pertencente à embaixada, na época vazio. Tempos depois, a casa superlotou”, detalha o autor.

Na esteira de Paulo de Tarso vieram depois os amigos Almino Afonso, o Plínio de Arruda Sampaio e Paulo Freire. Com o endurecimento do regime militar, a partir do AI-5, logo a colônia brasileira no Chile foi aumentando com a chegada de figura eminentes no cenaário político da época como o jornalista carioca Paulo Alberto Monteiro de Barros (o Arthur da Távola), o goiano João Batista Zacariotti – amigo e subchefe do governador de Mauro Borges -, o jornalista e parlamentar Márcio Moreira Alves, o escritor Antônio Callado, além de Fernando Henrique Cardoso e José Serra, o mais novo da turma.

Grande sertão“Mesmo fora do Brasil conseguimos arrumar nossa vida num clima bem brasileiro. A mentalidade da família mantinha as tradições daqui: uma casa grande e boa comida”, escreve Vasco Santos, que descreve passagens curiosas do cotidiano de sua família e amigos exilados do pai.

Uma delas é a de um araponga infiltrado entre os brasileiros no Chile, com a nítida missão de conseguir informações comprometedoras dos exilados no país andino. Certa vez, ao chegar de surpresa à casa de Paulo de Tarso, notou a realização de uma missa e não hesitou de fazer um comentário constrangedor ao anfitrião da casa:

“Você não sabe o quanto essa missa será importante em sua vida!”

Noutra ocasião, após receber para um almoço o padrinho político e amigo Jânio Quadros, soube por meio do embaixador brasileiro no país que este o havia traído com um comentário maldoso. O ex-presidente disse ao diplomata que ele deveria ter cuidado com alguns exilados brasileiros, dos quais Paulo de Tarso, um dos mais perigosos.

Anos mais tarde, já no Brasil, após um reencontro entre os dois, Jânio lhe cobrou o distanciamento do afilhado que não se fez de rogado. “Também, depois do que você disse para o embaixador lá no Chile!”, desabafou. “Eu só estava querendo dizer que você era um dos mais brilhantes!”, desconversou Jânio.

A amizade entre Paulo de Tarso e Paulo Freire, estreitadas no exílio, é uma passagem à parte no livro. O autor revela que, graças ao amigo educador, o pai se apaixonaria por Guimarães Rosa e sua obra máxima, Grande sertão: Veredas. Paixão essa que o levaria a publicar, em 1978, um estudo sobre a obra intitulado: O diálogo no Grande Sertão: Veredas.

* Este texto foi escrito ao som de: Cold fact (Sixto Rodriguez – 1970)

Cold fact

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