Garota de Ipanema (1967)

Vinícius de Moraes com Heô Pinheiro, a verdadeira musa do título...

Vinícius de Moraes com Helô Pinheiro, a verdadeira musa do título…

Um jovem, bonito e elegante Arnaldo Jabor vai andando na praia de sapatos mocassim, bermuda branca e camisa de mangas compridas. Falando um inglês impecável, acompanha um cineasta estrangeiro que filma algo sobre as belezas da mulher brasileira. De repente para uma garota e pergunta ao namorado dela se o gringo a pode filmar, sendo fuzilado por um sonoro NÃO. A cena hilária aparece logo nos minutos finais de Garota de Ipanema, de Leon Hirszman.

Dada a trajetória de militância esquerdista do cineasta, é de espantar que o diretor de filmes como ABC da greve (1979-1990) e Eles não usam black-tie (1981) tenha escrito um roteiro tão burguês. E pior, junto com Eduardo Coutinho e argumento de Glauber Rocha.

Enfim, é a história de Márcia (Márcia Rodrigues), a garota do título que se pressupõe ser o arquétipo da musa que influenciou em 1962 Tom Jobim e Vinícius de Moraes a escrever aquele que é um dos maiores sucessos da bossa nova. Ela é bonita, descolada, rica, adora passar os dias na praia, frequenta rodas de intelectuais, curte bossa nova e ainda arrumar tempo para paquerar o Chico Buarque de Hollanda. Isso porque acabou de terminar um namoro com o surfista ciumento que tirou fora o gringo babão.

“Já viu falar em Picasso?”, pergunta um amigo que acabou de chegar de Paris, lhe Leonapresentando as novidades da capital francesa.

Livre, leve e solta, ela borboleteia pela noite carioca até se deparar com um fotógrafo (Adriano Reis) cheio de charme casado que lhe mostra não apenas o que amor, mas as coisas importantes da vida como política e reflexões acerca da vida. É bem típico da época o discurso dele, entre beijos, sobre a ordem estabelecida e a luta de classes.

Mas em se tratando de Leon Hirszman e Eduardo Coutinho, falta aqui consistência no roteiro até mesmo em aborda o universo burguês da época. Desprezado pela crítica, o filme irritou os fãs de bossa nova que pensaram achar ali alguma referência à canção imortalizada pela dupla Tom Jobim e Vinícius.

“Pensei apenas em mostrar a vida que tinha uma garota daquele nível, uma vida enfadonha, sem perspectiva e sem liberdade”, comentou na época o diretor.

Visto hoje com um olhar distanciado da efervescência política e cultural da época, o filme não passa de uma divertida atração, um típico filme de “amigos” cujo elenco é recheado personalidade da época, como o comentarista esportivo João Saldanha, que aparece em cena como o pai da mocinha. É hilário ver o cronista Rubem Braga com sua figura ursina aparecendo como figurante em uma das várias festas da trama e, além de Chico Buarque, fazem uma pontinha no projeto Baden Powell, Vinícius de Moraes, Nara Leão e até Ronnie Von.

* Este texto foi escrito ao som de: R.E.M. – MTV Unplugged (1991)

REM

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