Mapas para as estrelas (2014)

No filme Julianne Moore e Mia Wasikowska são duas almas ligadas pelo fogo

No filme, Julianne Moore e Mia Wasikowska são duas almas ligadas pelo fogo

Não há nada das bizarrices dos seres humanos no drama Mapas para as estrelas que o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues já não tenha contado em suas histórias. Contudo, o estranho canadense David Cronenberg recheia sua crônica sobre o mundinho fake e fútil de Hollywood escrito por Bruce Wagner (A hora do pesadelo 3) com uma pitada sombria de suspense de horror e cinismo. Daí a presença da vencedora do Oscar de Melhor Atriz deste ano Julianne Moore ganhar um peso a mais de ironia. Aqui ela é Havana Segrand, uma atriz no auge da carreira que tenta exorcizar os fantasmas do passado almejando aquele que será o papel de sua vida, interpretar a própria mãe – morta num incêndio -, nas telonas.

“Sabe o que é inferno? Um mundo sem narcóticos”, debocha o fantasma de sua mãe.

Linda, milionária, solitária, homossexual e meia esquizofrênica, ela vive numa bolha aparte regada a muito cigarros, antidepressivos e ostentação banal. “Nossa, não sei como eu consegui gastar $ 18 mil dólares hoje?”, desabafa fútil para a reprimida Agatha (Mia Wasikowska), sua empregada que, assim como ela, guarda um passado trágico. São duas almas ligadas pelo fogo.

O que Havana não sabe é que Agatha é filha de seu psicoterapeuta almofadinha (John Mapas para as estrelas 2Cusack). Ele fez fortuna vendendo livros de autoajuda, é uma estrela da televisão, mas é incapaz de resolver seus próprios problemas. Um deles é do filho Benjie (Evan Bird), o super astro de uma comédia de sucesso que tem o ego maior do que qualquer estrela de verdade de Hollywood. A filha Agatha, no passado colocou fogo na casa e quase matou toda a família por que não conseguiu se casar, na pré-adolescência, com o irmão.

“Nossa vida é rica, foi refeita com as cinzas que eu deixei”, lhe joga na cara o pai. ““Ninguém entra fortuitamente em nossas vidas. Nós a chamamos”, ensina ele a sua cliente mimada Havana.

A forma natural, quase despojada com que David Cronenberg apresenta esses personagens caóticos é um sundae com gosto amargo. Isso porque há o tempo todo na narrativa um clima de decadência promíscua, maldade humana no ar, mas surge aqui e acolá brechas para certa ingenuidade.  A cena em que Havana Segrand comemora a morte do filho de sua concorrente profissional é de dar asco. “Esses são os piores. Tem que disputar o espelho com eles”, diz amarga, sobre o fato de casar um ator.

O pragmatismo inocente com que o motorista de limusine Jerome Fontana (Robert Pattinson) sonha em alcançar fama e sucesso na carreira de ator é cômico.

“Motoristas de limusine são lobos”, comenta cheia de malícia Havana, que não se furta de um rápido affair com ele no banco de trás do luxuoso carro por puro sadismo.

Conhecido pela morbidez com que encara a realidade que o circunda, o cineasta David Cronenberg mais uma vez aqui dá uma lição de como fazer cinema. Bom cinema, diga-se de passagem. Mais do que isso, o niilismo e falta de crença com que vê o ser humano é um estímulo para levar a vida como se fosse uma piada sem graça.

* Este texto foi escrito ao som de: So long, Bannatyne (The Guess Who – 1971)

The Guess Who

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