Os matadores (1997)

Maria Padilha em cena do filme como uma fogosa esposa infiel...

Maria Padilha em cena do filme, bancando uma pistoleira fogosa em cena cheia de erotismo…

O paulista Beto Brant é um dos poucos cineastas do cinema contemporâneo que mexe comigo de forma marcante. Seu cinema visceral e autêntico, como poucos, foge dos clichês temáticos e narrativos do eixo Rio-São Paulo, levando o espectador para viagens geográficas, sociais e sensoriais das mais motivantes. E ele já mostrou a que veio logo de cara, com uma estreia impactante como diretor e roteirista, talvez uma das mais promissoras do cinema nacional dos últimos tempos. Isso foi em 1997, com o faroeste, Os matadores, que tive oportunidade de rever outro dia na Mostra Beto Brant do Canal Brasil.

O filme marca também o início da parceria entre o cineasta e o escritor e jornalista Marçal Aquino, principal roteirista de seus filmes, autor do conto que dá origem a essa história. Na trama, que se passa na fronteira do Brasil com o Paraguai, dois matadores profissionais relembram os feitos de Múcio (Chico Diaz), o pistoleiro mais profissional da região. Um deles é da região é tem experiência de sobra no métier. O outro é um ladrão de carro chinfrim carioca que resolveu dar uns rolés por aquelas bandas e tira onda de machão.

“Você já matou alguém?”, desafia o mais velho, ao mesmo tempo em que relembra os feitos e amizade por Múcio. “Gente nervosa aqui tem vida curta. Lá de onde você veio é assim?”, ironiza, alternando um copo de cerveja com outro de pinga.

A região, como se sabe, é terra de ninguém, onde impera a lei do mais forte. No caso, os Os Matadoresgrandes proprietários de fazendas, gente que movimenta milhões com o agronegócio e também desmatando árvores. Um desses chefes é vivido pelo ótimo ator Adriano Stuart, que também dirigiu filmes e programas dos trapalhões. Ele é casado com a lasciva e linda Helena (Maria Padilha), uma mulher charmosa e fogosa que tem um caso com Múcio, um dos capangas do marido.  A tórrida cena dos dois entre tapas e beijos, na fuga dos amantes, num quarto de hotel é deliciosamente empolgante.

A narrativa de Beto Brant, mesclando flashbacks e o presente, talvez por influência do jornalista Marçal Aquino, é quase documental. Mas tem muito do olhar empírico tanto de Aquino, quanto do diretor Beto Brant. O primeiro, quando jovem, entrou no caminhão do irmão e correu o mundo. Um dos lugares que conheceu foi o cenário do filme. O segundo também viveu uma pequena parte da vida na região. Daí a precisão do registro nas andanças do personagem de Murílio Benício – o bad boy carioca sempre com chiclete na boca -, pelas ruas da fronteira entre os dois países.

A beleza brejeira do lugar se confunde com o caráter rude dos personagens, muito bem construídos dentro de suas contradições. Alfredão, por exemplo, interpretado com perfeição pelo ótimo Wolney de Assis, é aquele sujeito típico que moldou o caráter a partir da aspereza que cerca o lugar. Mas é capaz de fazer de tudo pela família, inclusive de dar sua própria vida, o que ele não precisa fazer, já que deu no pé antes que algum pistoleiro lhe tirasse.

* Este texto foi escrito ao som de: Cabeça dinossauro (Titãs – 1986)

Cabeça dinossauro

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