Redescobrindo os Los Hermanos

Los Hermanos  no auge da carreira, banda ironiza sucesso

Los Hermanos no auge da carreira, banda carioca ironiza sucesso

Os cariocas dos Los Hermanos dividem opiniões. É daquele tipo de banda que você odeia ou ama. Felizmente, para boa parte das pessoas, me enquadro com orgulho dessa última. E descobri isso outro dia. Já estou até ouvindo o meu amigo Pedrão dizendo: “Pô, Lúcio, pô!”. “Não tenho mais paciência para ouvir Los Hermanos, não!”.

Mas enfim, gosto é gosto e aqui sigo ouvindo a banda formada por quatro amigos pelos corredores da PUC- Rio, no final dos anos 90. Como todo mundo, fui fisgado na época do lançamento do primeiro disco pela melodia fácil e pegajosa de Anna Júlia, hit instantâneo com sua referência ingênua a la Jovem Guarda. A música, por sinal, gravada mais tarde pelo ex-beatle George Harrison, é a grande querida da jukebox das minhas duas sobrinhas.

Mas a banda tem uma sonoridade sui generis com uma mistura de pop suave, sonoridade latina com o uso de muitos metais e MPB com influências das baladas românticas de Chico Buarque e Caetano Veloso. Enfim, é algo agradável de ouvir e sentir. Viajar. As letras são inteligentemente bem escritas e trabalhadas.

Principal letrista da banda, Marcelo Camelo, é de uma sensibilidade incrível. É autor de versos singelos como: “É de lágrima que faço o mar para navegar/Vamos lá/ (…) É de mágica que eu dobro a vida em flor/Assim”, canta ele na nostálgica e melancólica É de lágrima, última faixa do último trabalho da banda.

Rodrigo Amarante, principal guitarrista dos Los Hermanos é outro autor de letras sensíveis e Los Hermanos 5com habilidade inata para escrever versos tocantes, construir melodias expressivas. Basta ouvir faixas como Sentimental, do segundo álbum, Bloco do eu sozinho, e Condicional, do trabalho mais recente, gravado no ano de 2005. “Quem é mais sentimental do que eu?”, pergunta ele na primeira canção. “Eu só aceito a condição de ter você só para mim”, arremata.

Dito isso, vale lembrar que, embora o grupo não tenha acabado eles mantém um logo hiato de 10 anos sem gravar, com raras apresentações aqui e acolá. Eu mesmo tive oportunidade de vê-los em São Paulo no Just a fest, a exatamente seis anos, abrindo para o Kraftwert e o Radiohead. Um luxo para eles e, sobretudo, os fãs.

O Los Hermanos é uma banda cult. E trabalha inconscientemente para isso. Para começar, não dão a mínima para o sucesso. São irônicos e debochados quanto a isso. A banda adora o que faze e o resto é consequência. O visual é estranho, quatro barbudos que lembram revolucionários cubanos ou árabes radicais. A posição no mainstream da música é rebelde e idealista. Não vendem muitos discos, mas fazem muitos shows e tem um público cativo e fiel. Daí o choque constante com burocratas burros e mercenários da indústria fonográfica e com a crítica especializada preguiçosa e reacionária. É famoso o vídeo no youtube do Rodrigo Amarante descascando um jornalista otário que prefere apostar no clichê da profissão e fazer perguntas chavões.

“Porque vocês são sempre lembrados por Anna Júlia?”, é a pergunta.

“Não, porque nem sempre!”, prefere esculachar ele na maior elegância.

Acho que é isso…

* Este texto foi escrito ao som de: Bloco do eu sozinho (Los Hermanos – 2001)

Bloco do eu sozinho

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