Quando a morte é um momento de reflexão

“A vida inteira que podia ter sido e que não foi...”.

“A vida inteira que podia ter sido e que não foi…”, Manuel Bandeira

“Bem que o dia andava estranho. Dava pra sentir no ar. Pesado, frio e cinza. E choveu à tarde inteira. E a notícia triste me pegou de surpresa no crepúsculo do dia, com o vento frio da chuva batendo em meu rosto, molhando meu chapéu. “A vida inteira que podia ter sido e que não foi…”. Os versos do velho Bandeira me vieram de imediato à mente. “A vida inteira que podia ter sido e que não foi…”. E não consigo tirar esses versos do melancólico poeta modernista Manuel Bandeira da minha cabeça.

Acho que até agora estou tentando reorganizar as ideias. Entender direito o que aconteceu. Busquei solidariedade em ombros amigos, mas só esbarrei em indiferença. A dor só é mais forte quando nos atinge de forma direta e em cheio. Do contrário, ninguém se importa. E eu não fui atingido direto e em cheio, mas me deixe abalar. A vida é assim, às vezes injusta, cruel e desumana. Não tente buscar coerência ou entender o que ela faz. Basta somente seguir em frente… E seguir em frente com a cabeça erguida… Se possível…

Vivemos dias de fugas fúteis. A pressa do dia a dia, a correria do cotidiano nos faz seres humanos frios e egoístas. Demasiadamente frios e egoístas. Se a coragem e as circunstâncias me permitissem, estaria agora ao lado dela para dar apoio e força. Sei lá, dizer que, se eu fosse um mágico, balançaria minha varinha e faria desaparecer toda essa situação angustiante pela qual ela e a família está passando. Ou a abraçaria forte, um abraço ursino e, como uma esponja humana, sugar toda a tristeza, dor e vazio que ela está sentindo. Enfim, seria mais um ombro amigo nesse momento tão sombrio e triste. Flor

Morrer é um momento de reflexão para aqueles que ficam. E perder alguém tão querido e próximo é como perder um pedaço da gente. Que fiquem as boas lembranças. Daqui para frente saudade será uma palavra cheia de sentimentos e significados especiais em almas sofridas.

Uma oração. É tudo que posso lhe oferecer. Uma oração de pesar…

…Hoje o dia ainda continua frio, triste e cinza. Sinto-me pesado, angustiado. Não sei o que fazer, onde firmar os passos, o que dizer. Fiquei um bom tempo dando voltas e até agora não saí do lugar aqui dentro de mim. E não me sai da cabeça o vazio que tem ficado no coração dela. O vazio que ficou no coração da mãe. Queria ter o dom, o poder de preencher essas lacunas. A dor da perda de um filho ou de um irmão é algo imensurável e tudo que quero agora e poder estar ao lado das minhas crianças. Abraçá-las bem fortes e sentir o calor que emana de seus corpos. Que a luz da sabedoria abrace familiares dessa querida amiga e guie o caminho de todos que a cercam.

Não o conheci. Mas sei que ele tinha um sorriso iluminado e mágico igual ao dela. Igual ao do filho. Espero que ela não deixe que esse momento de tristeza, apesar de tudo, apague o sorriso mágico que ela tem. A vida continua. E que ela e a irmã sejam o farol nesse momento de sombras no caminho dos pais. E já tem sido assim. A força interior que ela tem demonstrado ter nesse momento é singular e me fez verte algumas lágrimas nos últimos dias. Da delicadeza do seu jeito de ser, eis que surge a força de uma estrela da manhã e da noite cintilante e etérea que também me dá ânimo para seguir…

Força… Luz… Paz… Serenidade…”.

* Este texto foi escrito ao som de: Ágætis byrjun (Sigur Rós – 1999) Sigur

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