Orfeu (1999)

Toni Garrido e Patrícia França dão vida aos personagens míticos numa versão urbana

Toni Garrido e Patrícia França dão vida aos personagens míticos numa versão urbana

Da vasta filmografia do cineasta Cacá Diegues, Orfeu, lançado em 1999, é um dos poucos filmes que ainda não tinha visto. E não vi, confesso, por preconceito, já que tinha lido alguns comentários medonhos e maldosos da crítica especializada e me desanimei. Tudo bobagem porque, apesar dos excessos dramáticos, o filme é formidável.

Bem, como o título denuncia, a fita é baseada em peça do poeta romântico Vinícius de Moraes e, para escrever o roteiro, o diretor Cacá Diegues se cercou de nome de respeito das letras como o novelista João Emanuel Carneiro, o escritor Paulo Lins (autor do livro Cidade de Deus), o dramaturgo Hamilton Vaz Pereira e o sociólogo irmão do paralamas Herbert Vianna, Hermano Vianna.

O mito de Orfeu todo mundo que tem intimidade com o mundo das artes conhece. Era um médico poeta de talento que se apaixonou pela bela Eurídice e conheceu sua tragédia porque sua eterna musa era linda demais. No musical Orfeu da Conceição de 1954 escrito por Vinícius de Moraes e musicado por Antônio Carlos Jobim, o mito grego é transporto de forma inteligente para a realidade brasileira, tendo como cenário as incipientes favelas.  Premissa adotada pelo francês Marcel Camus na clássica e premiada adaptação de 1959 e que, sabiamente, Cacá Diegues, com seu contundente olhar social, dá uma modernizada pungente numa versão realizada 40 anos depois da primeira versão cinematográfica.

Orfeu“A polícia é a única coisa mesmo do governo que sobe o morro”, lamenta o herói urbano moderno vivido pelo cantor de reggae e galã, líder da banda Cidade Negra, Toni Garrido.

Aliás, para aqueles que viram a performance do músico com olhos tortos se decepcionaram, porque ele está bem à vontade na fita.

Na trama de Cacá Diegues – que faz uma rápida ponta como o proprietário indie de uma birosca do morro -, Orfeu é um músico e compositor de sambas, autor dos sambas-enredos da Unidos da Carioca, atualmente duas vezes campeã do carnaval do Rio. Enrabichado por uma passista da escola (Isabel Fillardis), ele se ver num dilema sentimental ao conhecer a recatada Eurídice (Patrícia França), que acaba de chegar do norte do país, em busca de suas raízes. “Amazônia, não. Sou do Acre”, corrige ela, constantemente, o erro geográfico.

Um dos remanescentes do Cinema Novo, eterno intelectual cultural preocupado com as questões sociais, o tempo todo Cacá Diegues alerta o espectador para as mazelas e os problemas políticos, sociais e humanos do nosso tempo com relação a esse nicho. É uma característica, estilo que perpassa por sua filmografia marcada por sucessos de público e crítica como A grande cidade (1966), Os herdeiros (1969), Quando o carnaval chegar (1972) e Xica da Silva (1976) e Bye, bye, Brasil (1979).

A crítica que o diretor faz ao crime organizado e a teatralização do poder dos traficantes pode parecer over, mas dá uma dimensão aproximada de uma realidade que, quase 20 anos depois de retratada nas telonas, ainda incomoda a sociedade carioca e nacional como um todo. A negligência do governo e atuação marginalizada da polícia, representada pela atuação marcante de Stepan Nercessian também.

“É super-homem ou tocha humana”, diz uma traficante diante do julgamento de um morador da favela “estuprador”, indecisa se joga ele barranco abaixo ou toca fogo.

Bom diretor de atores que é, Cacá Diegues não tem nenhuma dificuldade em conduzir um elenco de veteranos ilustres como a eterna parceira Zezé Motta, Milton Gonçalves e Castrinho, mas surpreende ao arrancar bons desempenhos de atores jovens, como o talentoso e descolado Silvio Gindane, aqui um artista plástico do morro chamado Maicol, numa referência caricata do rei do pop Michael Jackson.

Um detalhe curioso. As filmagens de Toni Garrido dançando no meio do carnaval carioca, na Sapucaí, foi filmada durante a passagem da Viradouro de Joãozinho Trinta.

* Este texto foi escrito ao som de: Orfeu da Conceição (Luiz Bonfá/Tom Jobim/Vinicius de Moraes e Roberto Paiva – 1956)

Orfeu da Conceição

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