De repente, no último verão (1960)

Liz Taylor é uma das cenas mais sensuais do filme... Polêmica à vista...

Liz Taylor é uma das cenas mais sensuais do filme… Polêmica à vista…

Se eu tivesse assistido a esse filme do genial e elegante Joseph L. Mankiewicz antes, com certeza o incluiria fácil no top five que fiz do diretor recentemente. E isso é no mínimo lamentável. Mas enfim, baseado em peça do polêmico dramaturgo Tennessee Williams, o filme, ousadíssimo para época, ainda hoje, mais de 40 anos depois, ainda causa desconforto.

Na trama, o drama de um respeitado cirurgião (Montgomery Clift) que luta para conseguir melhores condições de trabalho no hospital decadente em que trabalha e acaba envolvido numa teia de interesses, hipocrisias e segredos hediondos de uma família governada por uma milionária excêntrica e pirada (Katharine Hepburn). “Quando você perde um pai vira um órfão. Quando perde um filho vira… Nada”, diz ela, devastada pela dor.

O vazio que perdura em sua alma tem razão de ser porque ela nutria uma relação diferente com o filho, quase incestuosa, o que para os distantes anos 60 tal situação soava como imoral e indecente, mas o que diria os hipócritas dias de hoje?

“Poetas. Não importa a idade aparente. Todos morrem jovens”, lamenta, entregando a ocupação profissional do filho, um sujeito estranho e recluso que tinha o hábito de cuidar de um enorme jardim cuja, espécime raro, é uma planta carnívora.

Last summerRefinado e um verdadeiro artesão das palavras, o diretor Joseph L. Mankiewicz se apóia em diálogos contundentes e ferinos para narrar os dramas de seus personagens imorais e caóticos. Não escapa ninguém, nem mesmo o médico bem intencionado vivido pelo belo Montgomery Clift, já demonstrando claros sinais de sua dependência às drogas e ao álcool. Ele tem que aceitar a fazer lobotomia numa sobrinha “pirada” da generosa senhora rica, que passou os últimos momentos ao lado de seu filho, a fim de extirpar de sua memória lembranças das quais ela não quer mais recordar. Aos poucos descobre que a bela jovem desprotegida (Liz Taylor), além de linda, é vítima de pressão mesquinha de família fútil e passou por experiência “terrível e de caráter traumatizante.”

“São 50 mil para cada um já descontado do imposto”, diz o irmão, incentivando a fazer a cirurgia no cérebro para levar a bolada. “É como operação de amídalas”, diz cínico e egoísta.

Com roteiro do próprio Tennessee Williams e Gore Vidal, que ressuscitaram texto de uma peça do dramaturgo que estreou off Broadway no final dos anos 50, De repente, no último verão, é daqueles filmes norte-americanos marcados pela ousadia de abordar temas proibidos e intricados para a época como incesto e homossexualismo. A habilidade do diretor e seus roteiristas de luxo em camuflar a situação “vil” e “doente” do personagem são evidentes tanto no cuidado com a escolha das palavras, quanto nos truques narrativos. Em nenhum momento, por exemplo, o rosto do jovem Venable aparece.

Embora os últimos 15 minutos da fita sejam maçantes, com as recordações angustiantes de Cathy solucionando toda a trama, o filme é um petardo delicioso em todos os sentidos, sobretudo pelas atuações femininas, que tem seu ponto alto. Interpretando personagens emocionalmente desequilibradas, Katharine Hepburn e Liz Taylor desnudam a fantasia de belas e charmosas mulheres em função de performances impecáveis e marcantes.

Atuações essas que foram negligenciadas pelo Oscar. Mas quem dá pelota para o Oscar?

* Este texto foi escrito ao som de: Ventura (Los Hermanos – 2003)

Ventura - Los hermanos

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