O amor é estranho (2014)

Filme mostra as dificuldade de uma relação gay na terceira idade

Filme de Ira Sachs mostra as dificuldade de uma relação gay na terceira idade

Foi meio que automático. Pedi o bilhete à menina do cinema dizendo que era para o filme O estranho casal e ela nem se abalou. Apenas respondeu: “O senhor quis dizer O amor é estranho, né? Já sabia do que se tratava, denunciando o preconceito inconsciente que habita em todos nós, só porque o tema do filme diz respeito a um casal de velhinhos gay tentando sobreviver diante daquilo que o Glauber Rocha chamava de a “opressão do sistema”.

O estranho casal a qual me referia é um filme divertido baseado em peça de Neil Simon com Walter Matthau e Jack Lemmon, sobre a tensa relação entre dois amigos canastrões que só pensam em jogos e mulheres. A história de O amor é estranho é bem diferente e uma das mais tristes que vi nas telonas nos últimos meses. E uma das mais delicadas também.

Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) estão juntos há 39 anos e numa bela manhã decidem se casar. Só que enquanto eles mantinham a relação às escondidas, ou seja, no armário, todos eram amigos e não tocavam no assunto. A medida que o caso vem à tona, começam os problemas, com George perdendo o emprego como professor de música numa escola religiosa. “Mas há quanto tempo senhor me conhece?”, reclama ele ao padre diretor. “O problema não é esse, mas a questão é que o bispo está furioso”, explica, hipócrita.

Sem dinheiro, eles têm que vender o apartamento onde vivem e, sem para onde ir, passam a Love is strange 3morar de favor com parentes e amigos e é justamente nesse ponto que o sutil filme de Ira Sachs pega o espectador de jeito. É aqui que, confrontados com a intimidade alheia daqueles que só conheciam em rápidos momentos, descobre quem são realmente as pessoas. No auge de seus 50 anos, a gatíssima Marisa Tomei vive uma espécie de vilã necessária.

“Nunca me entedio com minha própria companhia”, diz George, depressivo com o fato de ter de ficar longe do seu parceiro de longa data. “Você está sentado em minha cama”, reclama irritado, quando um jovem lhe pergunta porque não está gostando da animada festa.

Ver Alfred Molina e John Lithgow (o ator que marcou minha infância na Sessão da tarde naquele filme do monstrengo pé grande), dois senhores de barbas hirsutas se beijando pode até causar desconforto, mas a sutileza com que o diretor Ira Sachs demonstra nas telas afetos, atritos familiares, desejos reprimidos, opressões do cotidiano e a hipocrisia humana é de fazer chorar. O roteiro escrito junto com o brasileiro Mauricio Zacharias é de um realismo sóbrio comovente. O desfecho é amargo e lírico ao mesmo tempo.

“Um brinde ao belo estranho”, diz um debilitado Ben, esboçando ciúmes, já na reta final da vida.

Uma sensação nos cinemas dos Estados Unidos, O amor é estranho é um filme de detalhes, dos desconfortáveis detalhes da natureza humana.

* Este texto foi escrito ao som de: Before Hollywood (The Go-Betweens – 1983)

The Go-Betweens

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