S. Bernardo – Graciliano Ramos

Cena do filme dirigido por Leon Hirszman. Adaptação ficou tão boa quanto o livro

Cena do filme dirigido por Leon Hirszman. Adaptação ficou tão boa quanto o livro

Uma dúvida hedionda paira sobre minha cabeça nesse momento. Não sei se gosto mais do filme Vidas secas ou S. Bernardo, ambos os títulos baseados em obras clássicas de Graciliano Ramos. O primeiro foi dirigido pelo mestre Nelson Pereira dos Santos, em 1963, e virou uma das obras-primas do Cinema Novo. O segundo é talvez o melhor trabalho do diretor Leon Hirszman e traz atuação impecável e memorável do Othon Bastos. Mas o pior é que a dúvida se estendeu também para o campo das letras porque não sei dizer para o leitor que perde o tempo lendo esse blog, se aprecio mais o romance, Vidas secas ou S. Bernardo, este último meu livro de cabeceira do momento.

De qualquer forma, estou me deliciando com as idiossincrasias do personagem Paulo Honório, um dos mais marcantes das páginas da literatura brasileira. Publicado em 1934, o livro teve os seus primeiros capítulos escritos na sacristia da Igreja Matriz de Palmeira dos Índios, cidade onde o escritor Graciliano Ramos se mudou na adolescência. Segundo romance do autor, é considerado pela crítica especializada a obra mais importante do movimento modernista por apresentar os conflitos sociais do Nordeste brasileiro, entre os quais a questão fundiária.

S. Bernardo 2Lembro que eu namorava uma edição de S. Bernardo que ficava dando sopa numa banca de revista perto do meu trabalho, nos meus tempos de secundarista, imaginando como seria aquela história cujo título fazia referência a uma raça de cachorro embora viria saber mais tarde que o título em questão faz referência à uma fazenda. Um dia desses ainda compro essa edição como relíquia de minhas memórias de adolescência por puro capricho. Acho que ao invés de S. Bernardo, com o “s” abreviado, era “São” Bernardo mesmo.

Mas enfim, falando do que interessa, lendo o livro, é fácil perceber que a adaptação cinematográfica de Leon Hirszman do filme não foi apenas impecável e fiel, mas deslumbrante. E não sei dizer se o livro é melhor do que o filme ou vice-versa, sabendo que geralmente os livros são sempre melhor do que as adaptações.

Contudo, o que gosto no geral é da narrativa enxuta e direta de Graciliano Ramos, diga-se de passagem, um escritor exigente e, metodicamente, chato com sua própria escrita. Uma escrita seca que se confunde facilmente com a aridez do sertão onde a trama se passa. No livro, o autor consegue transmitir com seu estilo despojado, a personalidade árdua e opressiva de Paulo Honório, um homem que aprendeu a ler e escrever na cadeia e a subir na vida conseguindo aproveitar as boas oportunidades que ela lhe deu.

“Tudo quanto possuímos vem desses cem mil-réis que o ladrão do Pereira me emprestou. Usura de judeu, cinco por cento ao mês”, explica ele à mulher Madalena, uma moça fina e com intimidade com as letras com casou.

Madalena, sua mulher, representa o extremo da personalidade rude de Paulo Honório, um homem conservador e violento, movido por rompantes irresponsáveis e até infantis diante da cultura e sensibilidade da esposa. “Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente”, diz ele assustado com a descoberta de uma personalidade da mulher. “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”, lamenta.

O desfecho dessa história, assim como a paisagem desoladora do sertão nordestino e seus personagens amargurados, é triste e desolador. Talvez nenhum escritor brasileiro tenha registrado com tamanha força e primazia esse estado de espírito mais do que o velho Graça.

* Este texto foi escrito ao som de: Raul Seixas (1983)

Raul Seixas - 1983

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