Brasília, a última utopia (1989 – 1993)

O baiano Roberto Pires retoma o tema da reforma agrária num dos episódios

O baiano Roberto Pires retoma o tema da reforma agrária num dos episódios

Para quem me conhece sabe que o cinema é uma das minhas grandes paixões. Brasília é outra. E assim, juntando a fome com a vontade de comer, resolvi nos últimos meses me debruçar sobre a filmografia dessa cidade que tanto amo e adotei como meu segundo lar. E quer saber? Tenho feito grandes descobertas, uma delas foi o filme de episódios: Brasília, a última utopia, que nem sei como veio parar em minhas mãos.

A ideia do projeto nasceu em 1987, quando o jornalista e homem da cultura Reinaldo Jardim, então ligado à Fundação Cultural do DF, deu a ideia da realização de um filme de episódios que retratasse as diversas “brasílias” por meio do olhar de cineastas radicados na cidade. E assim, surgiram fácil nomes como dos mestres Vladimir Carvalho e Roberto Pires, entre outros que, unidos pelo mesmo cenário, a nova capital, desenvolveram tramas independentes cheias de simbolismos e romantismos históricos.

As várias temáticas sobre a cidade sonhada por Juscelino Kubitschek estão distribuídas entre o gênero ficção e documentário e explodem em seis episódios de forma surpreendente. Flertando com o cinema poesia, o paraibano Vladimir Carvalho mergulha no cerrado brasiliense em A paisagem natural e, no estilo dos documentários do National Geograph, explora a riqueza da flora e fauna do Brasil central num projeto que diferente de tudo o que ele já realizou até então. Acredito que esse projeto do diretor de O homem de areia (1982) e Conterrâneos velhos de guerra (1991) seja inédito a muitos cinéfilos por aí.

Professor acadêmico especializado nas Missões Cruz, Pedro Jorge de Castro recorre à Bsb Utopia 2narrativa alegórica em O sinal da cruz para contar, de forma simples e didática, a história da evolução da sociedade brasileira da colonização até a construção de Brasília. No elenco, atores como B. de Paiva e Regina Dourado transitam entre o Brasil dos bravos bandeirantes, passando pela chegada dos primeiros colonizadores ao país, indo até a saga dos pioneiros que ajudaram a construir a nova capital no coração do cerrado brasileiro.

O mais político dos seis filmes, A volta de Chico Candango ressuscita o tema da reforma agrária por meio da árdua trajetória de um operário que ajudou a construir Brasília. Agora vivendo no mato grosso, ele sofre a opressão dos grandes donos de terra e acredita que os governantes do país poderão lhe ajudar de bom grado, com base pela sua contribuição nos canteiros de obras de Brasília.

“Brasília foi criada para ser um lugar onde morasse junto trabalhador e doutor, chofer e ministro, mas com o tempo só foram ficando os doutores e ministros”, lamenta, desanimado diante da burocracia e desmandos que tomam contar do lugar.

Dirigido por Moacir de Oliveira, Suíte Brasília é um passeio pela imponente arquitetura da cidade tendo, como fio condutor, a canção-título escrita por Renato Vasconcelos. Já Além do cinema do além o diretor Pedro Anísio recorre ao bom humor para contar a forte influência do misticismo em Brasília tendo como narrador Spirit, o mítico personagem criado por Will Eisner. A atriz Ana Maria Magalhães vive em cena a viúva de um caminhoneiro que virou médium e fundou o Vale do Amanhecer, enquanto que Joel Barcelos encarna um xamã que vive atazanando a visa do herói noir.

Fecha o projeto Brasília, a última utopia, o documentário de Geraldo Moraes, A capital do brasis, filme que registra a diversidade de Brasília a partir de depoimentos de figuras importantes da cidade e anônimos que se radicalizaram por aqui. “Brasília é formada por deprimidos e piotários”, dá o diagnóstico um psicanalista.

* Este texto foi escrito ao som de: Uma outra estação (Legião Urbana – 1997)

Uma outra estação

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