Até tu Lindergh?

O jovem líder da UNE nacional de cara-pintada a cara-de-pau

O então jovem líder da UNE nacional de cara-pintada à cara-de-pau

Em 1992 eu tinha 16 anos e fui às ruas, como estudante indignado, com a cara pintada, ajudar a sociedade a derrubar o então presidente da República, Fernando Collor de Mello, envolvido até o pescoço num esquema de corrupção cabeludo. Então líder da União Nacional dos Estudantes (UNE), o jovem Lindebergh Farias virou referência nacional por arregimentar uma massa furiosa de secundaristas e universitários no processo de impeachment que mudou e marcou para sempre a vida política do país.

Passados 23 anos, os dois principais personagens desse episódio vergonhoso voltam a se encontrar em um escândalo de repercussão nacional, com a presença de ambos na lista de políticos envolvidos na investigação da Operação Lava-Jato. A notícia se abateu sobre mim com a força de um trovão bíblico, me fazendo querer sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho. Isso mesmo, chorar lágrimas de esguicho como o personagem de Nelson Rodrigues.

Isso porque tal situação nos faz pensar que no Brasil não podemos acreditar em ninguém. Mas em ninguém mesmo, nem no seu Zé que vende Chica Bon ali na esquina, nem mesmo nos justiceiros de plantão.

Natural de João Pessoa (PB), Lindebergh, filho de um médico e professora universitária, Anos rebeldescresceu cercado de ideias comunistas e aos 14 anos já se declarava um socialista empedernido. Não demorou muito para se tornar um líder estudantil e, em 1992, aos 21 anos, ganhou projeção nacional como presidente da UNE, sendo a principal voz dos caras-pintadas.

Na época, a minisssérie Anos Rebeldes era um grande sucesso na televisão brasileira e, a luta dos estudantes contra o regime militar da história escrita por Gilberto Braga e Sérgio Marques, fez a cabeça de milhares de secundaristas no país inteiro. De repente, todo mundo que era estudante e estava revoltado com a situação política do país, queria ser João Alfredo, o romântico e sonhador revolucionário vivido pelo ator Cássico Gabus Mendes. Eu mesmo queria ser João Alfredo e pintei a cara e fui às ruas, influenciado pelo personagem e pelo sucesso da Minissérie.

Após o impeachment de Collor a carreira política de Lindeberg Farias deslanchou, ocupando, em diversas fases, os cargos de deputado federal, prefeito de Nova Iguaçu – uma das principais cidades da Baixada Fluminense – e atualmente senador pelo PT, com mais de 4 milhões de eleitores. Um dos mais promissores políticos da atualidade, Lindeberg Farias corre o risco de ter sua trajetória vitoriosa arranhada ao aparecer lado a lado com seu eterno oponente, no rol dos investigados pela Justiça.

Para mim, que era um grande admirador do jovem Lindeberg Farias, desagradável notícia é uma grande decepção. O filósofo francês Rousseau é que tinha razão: “O bom é corrompido pelo sistema”.

Até tu Lindeberg?

* Este texto foi escrito ao som de: Iê, Iê, Iê (Kid Abelha – 1993)

Kid Abelha

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