Grandes olhos (2014)

Amy Adams e Christoph Walz num conto de fadas embalado pela mentira da arte

Amy Adams e Christoph Walz num conto de fadas embalado pela mentira da arte

O novo filme de Tim Burton é estranhíssimo. Pelo menos para quem está acostumado às esquisitices do diretor de cabeleira temperamental. Quase não traz elementos que marcaram a filmografia do diretor de obras originais como Edward, mãos de tesouras (1990) e Peixe grande e suas histórias maravilhosas (2003). O detalhe mais curioso é que, desta vez, Johnny Depp, não está no elenco da fita baseada na história real da artista plástica Margareth Keane (Amy Adams) e suas pinturas de meninas com olhos grandes.

Ela é uma mulher que teve a coragem de separar do marido numa época em que isso não era comum de acontecer e saiu de casa com a filha no banco de trás do carro e alguns quadros no porta-malas. Mendigou por empregos na condição de mulher divorciada e teve que aturar carrancas de chefes preconceituosos e bafos de hipocrisia por onde passou.

Um dia, perdida e carente pelas ruas de São Francisco, ela encontra-se com o galante e simpático pintor Walter Keane (Christoph Walz), um charlatão da arte que tem a especialidade de mentir compulsivamente e se apropriar das pinceladas alheias. E no caso de Margareth, além dos traços e estilo, roubou também o coração. “Quando você pinta revela a alma das pessoas”, elogia cinicamente.

No começo ela se mostra indignada com a apropriação indébita de seu talento, mas quando Grandes olhos 2o dinheiro chega aos montes, vacila e vai empurrando a situação até onde dá. Engana até a própria filha e, ao aconselhar com o padre, recebe uma descompostura machista.  “Nesse caso é melhor que você aceite as decisões do seu marido, ele é o chefe da casa”, comenta.

Talvez o mais realista dos filmes do diretor que tem forte pegada autoral, Grandes olhos é um projeto sério que fala sobre temas pertinentes nos dias de hoje como a banalização das artes por meio da indústria cultural. O que vale é vender e não o prazer de se ver uma obra de arte que nos comove. “Acho que as pessoas compram arte por emoção”, é uma frase cheia de ironia que paira no roteiro.

Apesar de Burton deixar o ritmo da trama cair nos minutos finais o filme é um trabalho interessante. Figurinos corretos e direção de arte impecáveis saltam aos olhos numa mistura deliciosa retro. Mas o que chama atenção no filme para mim é a boa direção de atores e nesse quesito o casal Amy Adams e Chistoph Waltz está perfeito. Note como Waltz valsa diante dos olhos do espectador entre o romântico ingênuo ao cínico tirânico.

“Daqui pra frente agora somos nós dois”, diz dissimulado, deixando se levar por seu castelo de ilusão. “Essas crianças são parte de mim”, lamenta ela, reivindicando sua arte.

Ah, sim, e a fita ainda conta com pequenas, mas emblemáticas participações dos atores Jason Schwartzman e Terence Stamp (Teorema). Não é uma obra de arte, como muitas produções do diretor, mas uma bela pintura cinematográfica.

* Este texto foi escrito ao som de: Atlantic crossing (Rod Stewart – 1975)

Atlantic crossing

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