Mandacaru vermelho (1961)

Nelson Pereira dos Santos contracenando com Sônia Pereira

Nelson Pereira dos Santos, bancando o ator e contracenando com Sônia Pereira

Terceiro longa-metragem do mestre Nelson Pereira dos Santos, Mandacaru vermelho é o filme do qual o cineasta não quer ouvir falar. “Acho que eu vou mandar que alguém perca esse filme. É o único longa que eu vou guardar na Cinemateca. Quem sabe lá ele se perde”, ironizou certa vez. Será que é porque ele resolveu dar uma de ator? Mas espera aí, Nelson Pereira dos Santos atuando? Isso mesmo. “Fui um sem-vergonha ali. Veja só…”, desconversou certa vez numa entrevista ao jornalista Rodrigo Fonseca.

Bem, se for por causa disso então é uma grande bobagem porque o diretor, tido como galã na época, além de bonito em cena, atuou direitinho. Na fita ele é um vaqueiro que rapta a sobrinha de uma fazendeira rica e criminosa, fugindo com ela para o meio do sertão. Já virou folclore a história de como esse filme nasceu. Na época Nelson ia filmar Vidas secas, mas uma chuva torrencial e a paisagem natural daquela estação não permitiram que a história de Graciliano Ramos fosse filmada. Para não perder a viagem, ele resolveu rodar Mandacaru vermelho, baseado numa lenda regional sobre amor, morte e vingança.

Mandacaru 5A referência direta é o western norte-americano, com direito a icônica trilha sonora, tão comum em filmes do gênero e na trama rola de tudo entre vilões e mocinhos, ou seja, tiroteio, perseguição e até incisiva reflexão sobre moral, fé e amor verdadeiro. “Eu pedi para morrer só depois que casar com você”, diz a mocinha, vivida por Sônia Pereira. “Que adianta viver sem pecado, mas sem honra?”, questiona o personagem de Nelson Pereira dos Santos.

Apesar da simplicidade temática de Mandacaru vermelho, não há como ver o filme e se lembrar imediatamente de duas fitas seminais do gênero desta fase do cinema brasileiro. Um é o clássico de Lima Barreto, O cangaceiro (1953). O outro, claro, Deus e o diabo na Terra do Sol (1964), do genial Glauber Rocha. É o que a crítica especializada determinou a rotular de nordestern. E com um detalhe. Mandacaru vermelho é de uma violência perturbadora para aqueles distantes anos 60 e neste contexto há uma cena emblemática. É quando um cangaceiro, na maldade, começa a atirar aleatoriamente nas cabras presas num cercado. O único sobrevivente da fazenda, um menino, se desespera gritando:

“Essas cabras são minhas!”, lamenta. “Ah, é, então você vai com elas”, responde o jagunço, que o sapeca à queima-roupa.

Daí tem a cena final, faroeste hollywoodiano puro, com a perseguição no topo de uma pedreira onde mora um ermitão que esconde um segredo com relação a família de justiceiros. Mas quer saber? O momento mais impactante do filme para mim não tem a ver com sangue, arma ou morte. Mas sexo. Pelo menos a insinuação dele mostrado de uma forma lírica e subliminar, com uma perna sensualmente lançada para fora da rede.

Até nisso o mestre Nelson Pereira dos Santos foi pioneiro.

* Este texto foi escrito ao som de: Smiler (Rod Stewart – 1974)

Rod Stewart - Smiler

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