Brega e Chic – Tradição e Modernidade

Em 1972 Nelson Ned se apresentou no Carnegie Hall e despertou a fúria da elite preconceituosa

Em 1972 Nelson Ned se apresentou no Carnegie Hall e irritou a crítica preconceituosa

Em 16 de junho de 1974 o cantor romântico Nelson Ned realizaria um feito em sua carreira. Se apresentar em um dos mais importantes palcos da América, o Carnegie Hall de Nova York, espaço sagrado da música onde já cantaram estrelas como Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Ray Charles e também artistas da bossa nova como João Gilberto e Tom Jobim. O feito, no entanto, foi visto com indignação e preconceito por boa parte dos ditos homens sérios da cultura. “Tremei, sacrossantos cultores da sagrada bossa nova. Dia 16 de junho, vosso venerado templo será ocupado por nada menos, do que Nelson Ned, emérito bolerista e baladista lacrimoso”, escreveu na época um colunista do Jornal do Brasil.

A birra era porque, no conceito da preconceituosa crítica especializada, um cantor e compositor de música romântica não poderia fazer sucesso no templo de astros do jazz e da bossa nova. E ao contrário do que aconteceu com João Gilberto e Tom Jobim em 1962, o baixinho Nelson Ned foi uma unanimidade na terra do tio Sam.

Brega“Com fama ou sem fama, com talento ou sem talento, quem quiser dar um concerto no Carnegie Hall de Nova York (…) só precisa pagar o preço e aluga-lo. Mas enchê-lo duas vezes no mesmo dia, com ingressos a 5 e 8 dólares, e ser aplaudido de pé por um público delirante, bem, isso, é outra história”, registrou uma reportagem da revista Veja da época. “Pois foi exatamente o que conseguiu realizar, na semana passada, o cantor brasileiro Nelson Ned.

Para o jornalista e pesquisador Paulo César de Araújo, autor do sensacional livro Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar, essa visão limitada e preconceituosa da qual artistas como Nelson Ned e similares sofreram, encontra explicação na divisão que, a partir dos anos 50, a música começou a ser observada, ou seja, aquelas realizadas entre a vertente da “tradição” e entre a vertente da “modernidade”. Críticos respeitados, mas não menos ranhetas como o poeta concretista Augusto de Campos, José Ramos Tinhorão, Tárik de Souza e Ruy Castro, entre outros.

“É a relação direta existente entre as recordações de cada pessoa e as experiências vividas no grupo social, desenvolvendo um conceito de memória que, para além do fenômeno individual e psicológico, a privilegia como um fenômeno coletivo e social”, analisa o autor citando o sociólogo francês Maurice Halbwachs. “No campo da música popular brasileira – tema deste livro – a memória também é um objeto de disputa e da mesma forma apresenta os seus ‘esquadradores’ (críticos, pesquisadores, historiadores, musicólogos)”, destaca.

Assim, ficaram cristalizados como símbolos da “tradição” e “autenticidade” a partir desse conceito nomes como de Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Noel Rosa, Wilson Batista, Cartola, Carlos Cachaça, Zé Ketti, Nelson Sargento e Clementina de Jesus. Enquanto que a vertente da “modernidade” e “evolução” tinha como representante estelas como Dick Farney, Lúcio Alves, Johnny Alf, Tom Jobim, João Gilberto e a geração que surgiu da influência direta da bossa nova – Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Elis Regina, Gal Costa e outros.

Grandes vendedores de discos da música “brega” e “cafona” como Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Paulo Sérgio, Lindomar Castilho, Odair José e Nelson Ned, entre vários outros, nem são citados, muito menos escolhidos para darem seus depoimentos para o Museu da Imagem e do Som.

Como bem definiu Agnaldo Timóteo e defende Paulo César de Araújo em sua obra: “Não existe música brega, o que existe são analistas preconceituosos”. Acho que é por aí…

* Este texto foi escrito ao som de: Eu também sou sentimental (Nelson Ned – 1970)

Nelson Ned 2

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