O existencialismo lírico de Vasco Santos

O poeta paulista e tristeza realista e existencial de seus versos

O poeta paulista aborda com tristeza realista e existencial temas universais como a espera

Foi logo depois do almoço. Almoço agradabilíssimo, diga-se de passagem. Já no começo da tarde. Íamos ali pela altura da 309 Norte, pelo lado de dentro da comercial, quando eu fui flechado pelos seguintes versos declamado com ritmo contagiante: “Espera a aventura/Da vida modificar/Espera a ternura/Perdida enfim retornar…”.

Logo pensei, caramba, parece Ferreira Gullar ou Manuel Bandeira! Sim, porque apesar de não conhecer a fundo o poeta maranhense, gosto de Manuel Bandeira, amo Manuel Bandeira, acredito em Manuel Bandeira. Mais do que de Deus. Aliás, não acredito em deus. Acredito no Manuel Bandeira. E continuei ouvindo: “Espera a real circunstância/De ter que mudar/Espera o final da ganância/Prá ter o que dar…”, dizia a segunda parte.

Bem, não eram versos do poeta pernambucano. Mas se não eram poesias de Manuel Bandeira, de que seria? Vasco Santos, filho de Paulo de Tarso Santos, político influente dos anos 50 e 60 que foi prefeito de Brasília entre fevereiro e agosto de 1961, além de Ministro da Educação e Cultura de João Goulart em 1963.

Paulo de Tarso Santos 2Figura simpática, divertida e cheia de ternura, Vasco Santos, tal qual o pai, também se formou como advogado, mas não abraçou a carreira política, tecendo grande intimidade com as artes, em particular com as palavras e os versos. Autor do livro Meu amigo Paulo de Tarso, biografia sobre o pai lançada em 2010 pela editora Documenta Histórica, é autor de versos singelos, contundentes e existenciais como esses de Espera precisa, que termina assim:

“Espera/Calado/Espera talvez um recado/Um jeito de ser consultado/Um tempo de ser esperado/Um modo de enfim ser usado/Um meio de então ser amado e amar.”

O ritmo dos versos de Espera precisa é avassalador. A urgência, o desespero intimista, apesar da ironia do título, contundentes. Tem a cadência contagiante de um samba “bossa nova, a leveza de um João Gilberto do cotidiano, a tristeza realista de um existencialista do nosso tempo. E esse tema se debulha de forma reflexiva em outros poemas do autor que fazem, eu diria, parte de uma série abordando as infinitas esperas humanas. Aquela que nos frustra, a que nos vence, a do futuro incerto em função de um presente marcado por intolerâncias, cobranças, mazelas do nosso dia a dia, como observa os versos de Espera a nova era:

“O sobe e desce se arrefece/Em disputas paralelas/Sequelas/Mazelas/Quirelas”, narra na primeira estrofe para arrematar com esperança pessimista: “Em meio a tanto tiroteiro/Se profetisa a nova era/Espera/Espera/Espera.”

Bem, uma pena que esses poemas ainda não foram publicados. Pelo menos foi o que me disse o autor. Mas não tem problema, vou esperar por esse feito com a paciência dos melhores dos admiradores. Porque como foi registrado em Espera vencida: “(…) Espera a esperar/Que saia da espera/A luz que se espera/Termine a espera/Pra não esperar.”

Há quem espera a vida toda, como eu agora, para se encantar com talento como esses.

* Este texto foi escrito ao som de: Talking book (Stevie Wonder – 1972)

Stevie-Wonder-Talking-Book

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