Amar, beber e cantar (2013)

Amante do teatro, mais uma vez o diretor recorreu à dramaturgia do inglês Alan Ayckbourn

Amante do teatro, novamente o diretor recorre à dramaturgia do inglês Alan Ayckbourn

Uma meia dúzia de amigos já me perguntou, à queima roupa, se eu moro nos cinemas do Libert Mall. Bem que eu gostaria. Sim, porque só ali passa os melhores filmes da cidade. Onde mais eu poderia assistir ao último filme do mestre Alain Resnais? E tem mais. Depois que Academia de Tênis foi para o espaço, me sinto como um cinéfilo órfão. Então ali nas salas de cinema do Libert Mall é que eu me realizo vendo os filmes que gosto e quando eu quero.

É o caso do último filme do diretor conhecido pela sua imersão singular nas nuances da memória e do tempo. Calcado em tom farsesco, a comédia Amar, comer e Cantar conta a trajetória de um grupo de teatro amador que fica abalado quando descobre que um amigo em comum está bastante doente e prestes a morrer. Sensibilizados, eles prestam uma última homenagem ensaiando uma peça na qual, propositalmente, a dualidade entre verdade e mentira, realismo e elementos artificiais entram em choque o tempo todo.

“O cinema de Resnais”, escreveu o crítico do Estadão Luiz Carlos Merten na ocasião da fita no Festival de Berlim, em 2014, “reflete a realidade, mas por meio da teatralidade.”

Daí os cenários fakes, as atuações sem credibilidade e situações artificiais. As externas da Resnais 2trama se passam no interior da Inglaterra com lindas paisagens bucólicas e volta e meia o diretor recorre aos desenhos bacanas do ilustrador Christian Hincker. E tem mais, onde é que entra a canção do título? E o que simboliza aquela toupeira que aparece, volta e meia, no jardim de um dos casais? Medonha a cena final em que a garota entra em cena e coloca uma bizarra foto em cima do caixão.

Bem, um amante do teatro, em especial das tramas do russo Anton Tchecov, Alain Resnais aqui encena tudo e, mais uma vez, assim como aconteceu com Smoking/No smoking (1993) e Medos privados em lugares públicos (2006), os textos dramáticos do inglês Alan Ayckbourn inspiram mais um projeto do diretor que morreu em março de 2014. Até os dramas dos personagens são, propositalmente fúteis, do ponto de vista da encenação.

“Sexualmente, estamos no mesmo marasmo há séculos”, comenta a personagem de Sabine Azéma, musa e mulher do diretor na vida real. “Que bom que você amadureceu. Não ia conseguir viver com uma mulher que ri o dia inteiro”, resmunga outro ator.

Sendo bem sincero, não sei se gostei muito dessa fita que achei bem chatinha, mas mesmo assim não deixa de ser um filme do mestre Alain Resnais.

* Este texto foi escrito ao som de: The Manhattans (1976)

Manhattans - The Manhattans

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s