Eu não sou cachorro, não

Waldick Soriano no auge da carreira

Waldick Soriano, um dos personagens do livro

Fuscão preto, sucesso de Almir Rogério nos anos 80, foi uma daquelas músicas da minha infância que me marcaram profundamente. Tocava na rádio incessantemente, dia e noite e, naquela época, a gente não tinha preconceito com relação às canções, se era cafona ou brega, essas bobagens. A gente gostava e pronto. Deixava o sentimento rolar e a imaginação em torno da amada idealizada corria solta. Toda vez que escuto Fuscão preto sofro um processo remissivo e viajo no tempo, de volta à minha infância querida que não volta mais.

Por tudo isso, que lamento que Almir Rogério e o maior sucesso de sua carreira até agora não apareceu nas páginas do livro Eu não sou cachorro, não Música Popular Cafona e a Ditadura Militar, magnífica obra escrita por Paulo César de Araújo. Autor da polêmica biografia de Roberto Carlos, o jornalista e escritor baiano é um aficionado pela música popular brasileira em todos os seus segmentos e categoria, o título mais do que irônico com relação a elitista sigla MPB – Música Popular Brasileira.

No livro com quase 500 páginas, o autor mostra que, à revelia do preconceito, das críticas sem fundamentos dos especialistas do segmento, as canções de amor de artistas como Paulo Sérgio, Odair José, Lindomar Castilho, Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Waldick Soriano Cachorro nãoe tantos outros, tinham mais a oferecer além de rasgos emocionados de paixão. Mais do que isso, apresentando argumentos contundentes e plausíveis, fundamentado numa narrativa acadêmica, faz justiça e mostra como a dupla, Dom e Ravel, autores da marcha ufanista Eu te amo meu Brasil, fora alvo de interpretações equivocadas sobre a postura política dos artistas, os colocando, historicamente à margem do reconhecimento devido.

“Entre 1968 e 1978, esta geração de artistas procurou expressar em suas composições as questões que, como pessoas do povo, tiveram que enfrentar. Produziram uma obra musical que, embora considerada tosca, vulgar, ingênua e atrasada, constituiu-se um corpo documental de grande importância, já que se refere a segmentos da população brasileira historicamente relegados ao silêncio”, observa Paulo César de Araújo no prefácio.

Eu não sou cachorro, não mostra que, assim como os artistas intelectuais de classe média que vieram de berços culturais como as faculdades, esses cantores “bregas cafonas” não tinham nada de subversivo, reacionário, tendo suas canções questionadas, vilipendiadas e até proibidas pelo regime militar. “Eu não sou cachorro, não remexe em conceitos cristalizados, ao demonstrar que os cantores e compositores cafonas dos anos 70 não eram alienados ou adesistas”, comenta na orelha do livro o jornalista e professor acadêmico Lula Branco Martins.

De quebra, deliciosamente, o autor vai apresentando uma pequena e importante biografia dos artistas citados na obra. Alguns deles de carreira curtíssima, como o ídolo negro Evaldo Braga e Paulo Sérgio. Mas essa é uma outra história.

* Este texto foi escrito ao som de: Waldick Soriano ao vivo (2007)

Waldick Soriano CD

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