Ida (2013)

Uma noviça judia perdida entre os dramas do holocausto e os prazeres da vida

Uma noviça judia perdida entre os dramas do holocausto e os prazeres da vida

O que uma cerimônia do Oscar não faz, não é verdade? Um dia depois da entrega dos prêmios, e lá estavam dezenas de pessoas se aboletando no cinema do Libert Mall para assistir ao drama polonês, Ida (2013), vencedor da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Inclusive eu, que havia visto a fita duas semanas atrás e dormido em algumas partes. Novamente cochilei, mas dessa vez nas partes em que não havia dormindo na primeira sessão. E isso não quer dizer que o filme seja ruim ou cansativo. Pelo contrário, é um drama tocante, comovente sobre a história de uma menina freira que não sabe se decide se casa com Deus ou com um músico de jazz na polônia dos anos 60, em pleno comunismo.

“Então você é uma freira judia”, provoca a tia, único familiar que ela tem em vida, num primeiro e amargo encontro entre as duas. “Tivemos nossa reunião de família, tenho que ir”, Emenda ela, sem demonstrar muito afeto pela sobrinha religiosa.

Mas a frieza e a distância entre as duas começam a dissipar com o tempo e logo elas estão trocando recordações tristes, corajosas impressões de vida e sentimentos mútuos de afeto. Uma proximidade que aumenta quando as duas saem em busca dos pais de Ida, provavelmente vítimas dos horrores do nazismo. “E se você chegar lá e descobrir que Deus não existe?”, questiona de forma irônica a tia, sobre a descoberta das carcaças de seus entes.

A fotografia charmosa e triste do filme é um detalhe a parte e, dito isso, admito que não meIda  2 lembro de ter visto um filme polonês que não seja em preto e branco. E é com seu branco ofuscante e sombras melancólicas que Ida, claro, retoma ao tema básico do cinema polonês, sempre exorcizando os fantasmas do holocausto. Mas a forma delicada e contundente com que o diretor Pawel Pawlikoski expõe o drama de uma nação é marcante. Preste atenção na cena da janela, que conta com um vôo mais incisivo do que de Birdman.

Singela, insegura, mas curiosa, Ida (Agata Trzebuchowska) é uma garota que quer se libertar das amarras do sistema seja elas de caráter metafísico ou da carne. A descoberta do pecado, dos prazeres da vida, pela jovem noviça, metaforicamente ilustrados em momentos de delicadeza, como dançar descalça na ponta dos pés ou planejar o futuro ao lado do homem amado é soberbo.

“Eu nunca estive em lugar nenhum”, comenta ela ao falar de seu claustro.

Claro que minha aposta na categoria era o massacrante Timbuktu, filme africano que retrata outro tipo de repressão, só que no mundo atual, mas diante da exuberância tristonha de Ida, até que o prêmio foi justo. Justíssimo.

* Este texto foi escrito ao som de: Shadows in the night (Bob Dylan – 2015)

Bob Dylan - Shadows in the night

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