Xica da Silva (1976)

Walmor Chagas e Zezé Motta em atuação marcante nesse drama histórico

Walmor Chagas e Zezé Motta em atuação marcante nesse drama histórico

E agora que o carnaval acabou me sinto à vontade para entrar na festa e falar sobre um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional que revi outro dia no Canal Brasil, o drama histórico, Xica da Silva, direção de Cacá Diegues de 1976. Cacá, com sua voz de profeta do Velho Testamento, é um dos cineastas brasileiros que mais gosto pelo seu estilo e autenticidade como criador. Alagoano radicalizado no Rio de Janeiro, o artista não esconde sua admiração pela cultura afro-brasileira, o que levou a realizar vários projetos com a temática como o próprio Xica da Silva, Ganga Zumba (1964), Quilombo (1984) e Orfeu (1999).

Xica da Silva foi o trabalho que trouxe para o plano nacional a figura sensual da atriz Zezé Motta, aqui no papel-título após uma indicação do produtor musical e compositor Nelson Motta, que a viu no musical hippie Godspell e a achou de uma beleza singular. “No primeiro encontro que tivemos, já sabíamos que havíamos encontrado Xica da Silva”, revela o diretor em sua autobiografia, Vida de cinema, devorado, recentemente, com devoção de cinéfilo.

E realmente é bem difícil de imaginar outra atriz no papel da escrava que virou um mito na segunda metade do século 18, após se tornar dama da alta sociedade do Arraial de Tijuco (atual Diamantina), ao se casar com importante representante da coroa portuguesa, o contratador, João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas).Xica da Silva 2

Sem o menor comprometimento com a história e sim com a simbologia cheia de esperança que o mito de Xica da Silva traz, o filme busca personagens e fatos do Brasil colonial para falar, de forma alegórica, da situação que o país vivia naquele momento, então sufocado pelas garras da ditadura militar. Só que teve gente que não entendeu nada e apontou metralhadoras cheias de preconceitos e burrices contra Cacá Diegues, o acusando de sexistas e de debochar da escravidão.

“(…) Não era de escravidão que o filme estava falando, mas do direito à felicidade em qualquer circunstância. Por que lamentar seria de esquerda e celebrar de direita”, ironiza o diretor e sua autobiografia.

O filme começa de forma lírica, num momento idílico do personagem de Walmor Chagas em plena montanhas do Serro do Príncipe tocando um número sentimental. “Os artistas não devem se meter com política, não é verdade?”, diz um dos personagens, mais uma vez fazendo alusão ao momento do país naqueles anos de chumbo, seguido de um discurso pessimista do personagem de Walmor Chagas. “Governar diamantes, será possível? Alguma coisa me trouxe ao Arraial de Tijuco, além da ambição que move o mundo. E alguma coisa me espera por lá, além da aventura que alimenta o espírito dos homens. Talvez o meu destino. A minha própria vida”, vaticina João Fernandes de Oliveira.

Para mim, tão importante quanto a escolha da atriz Zezé Motta para o filme, foi a trilha de Jorge Ben, que escreveu a letra em cima da hora, para desespero do diretor. Talvez por isso tenha ficado tão bem.

* Este texto foi escrito ao som de: África Brasil (Jorge Ben – 1976)

Africa Brasil

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