A importância de ser Prudente

Montagem do texto do início de 2000 com o ator Dalton Vigh (ao fundo), no papel principal

Montagem do texto do início de 2000 com o ator Dalton Vigh (ao fundo), no papel principal

Considerada a obra-prima teatral do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900), A importância de ser Prudente estreou nos palcos de Londres em 1895, um ano após ser escrita. Mas eu só fui ver uma montagem desse clássico nos palcos do país por volta de 2003, por aí. Foi ali no Teatro da Caixa numa versão que contava com o bonitão ator Dalton Vigh, no auge da carreira, na pele do cínico Algernon. E é bom que se diga já. Todos os personagens de Oscar Wilde, tal qual como ele, são de um cinismo revelador. Daí o sucesso de seus textos.

Dividida em três atos, a história, pontuada por um ritmo ágil, frenético, traz os melhores aforismos do autor na forma de uma farsa que o tempo todo gira em torno da identidade envolvendo figuras da alta sociedade britânica que insistem em viver o que não são. Daí a essência da trama, ou seja, de que as aparências contam mais do que a verdade.

Algernon é um solteirão falido que despreza as contas quando ela lhe bate a porta, armando novos subterfúgios para fazer mais dívidas. Jack, seu amigo, divide se tempo entre a tranquilidade do campo e os prazeres da cidade. O que liga os dois amigos, além da paixão por duas belas jovens, são laços de sangues que eles nem imaginam ter e que Wilde os conduz por meio de uma ardilosa e deliciosa teia de situações e diálogos que expõe, com fina ironia, o lado mais imoral do ser humano.

“Adoro o teatro. É muito mais real do que a vida”, é uma de suas melhores frases.Ernest 2

Jack, que é tutor de uma sobrinha que vive com ele no campo, a ingênua e apaixonada Cecily, derrete-se de amor pela confiante Gwendolen. Mas a mãe dessa não ver com bons olhos o relacionamento por não achar o rapaz à altura, financeiramente, de sua pequena. Arrogante, sincera e desconcertante, Lady Blacknell é a perfeita personificação do estilo esnobe da alta sociedade britânica. “Os dois pontos fracos de nossa era são a falta de princípios e a falta de perfil”, ironiza.

O título da peça é um divertido trocadilho bolado pelo autor em que as palavras homófonas, “Earnest” (Prudente em português), que também significa honesto em inglês, surge como metáfora para explorar a fragilidade entre os opostos, verdade e mentira, os disfarces impostos por uma sociedade marcada pelas aparências e desprezo à realidade.

“Meu caro amigo, não é nada fácil ser coisa alguma hoje em dia. Há um excesso de concorrência bestial para tudo”, comenta Algy, sem o menor pudor de expor seu lado canastrão.

Identidades trocadas, crianças abandonadas, reencontros familiares constrangedores, apego mortal ao material, reflexão espirituosa sobre a superficialidade e ao banal. Todos esses ingredientes são untados no impecável texto de Wilde que foi responsável, como bem comentou o diretor de teatro Alberto Guzik, por desnudar a hipocrisia da sociedade britânica nos palcos. E ele, Oscar Wilde, pagou caro por isso. “E se a vida para mim é um problema – como certamente acontece -, eu também não deixo de ser um problema para ela”, debochava o artista, bem ao seu estilo deliciosamente arrogante.

* Este texto foi escrito ao som de: The Queen is dead (The Smiths – 1986)

The queen is dead

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