Ventos de agosto (2014)

Um estranho objeto humano em meio ao litoral alagoano

Um estranho objeto humano em meio a beleza natural do litoral alagoano

Vencedor de dois prêmios na última edição do Festival de Brasília, a fita pernambucana Ventos de agosto, em exibição nas salas da cidade, traz um dos mais eroticamente belos cartazes do cinema nacional. Poesia pura. Já a trama prima pelo bizarro, circundando a trajetória de um casal de namorados de uma pacata vila de pescadores do interior de Alagoas. Ela (Dandara de Morais) adora tatuagem e tem a responsabilidade de cuidar dos mais velhos da família. Ele (Geová Manoel dos Santos), amante da pesca marinha, ganha a vida na plantação de coco, que representa a cultura da região.

Os dois se encontram no trabalho e após a labuta diária se entregam perdidamente ao amor na caçamba de um trator pilotado por ela com maestria pelas estradas de terra e rodovia. A beleza da fotografia premiada está tanto na sutileza com que a luz do litoral alagoano é explorada, quanto no quanto ela é trabalhada junto ao contraste da natureza. Há muito lirismo, por exemplo, nas luzes metálicas dos raios dos trovões explodindo na escuridão do mar, na ventania de agosto soprando na folha dos coqueiros ou nos gemidos de prazer se confundindo pelo sibilar do vento.

Ventos de agosto 2É em meio a esse cenário de paraíso inexplorado que o casal de namorado da trama vive, quando, de repente, a rotina desse idílico é quebrada com a descoberta de um corpo em total estado de decomposição devolvido pelo mar. Eis que o mistério toma conta do lugar, muda o dia a dia dos moradores do lugar e o burburinho do momento é o de saber de quem é aquela carcaça carcomida pelo tempo.

“Essa coisa de defunto é pra coveiro. Pescador cuida é de peixe”, observa o pai do jovem que encontrou o corpo, agora uma incômoda peça fedida pelas ruas do vilarejo.

Não há como passar indiferente a estranheza do filme, com seus personagens simples que são pego de surpresa pelo acaso. Tatuagens em ancas de um porco na calada da noite, pescadores ouvindo Tracy Chapman ao lado desse cadáver podre, uma jovem nua em alto mar que se banha com coca-cola ao som de punk rock. Em meio a essas esquisitices um homem do tempo que tem a missão de ouvir e capturar os ventos alísios, ventos que sopram dos trópicos para o Equador. Logo, ele estará enfeitiçado pela beleza do lugar e seus mistérios.

“É estranho mais as pedras têm pulmão, elas respiram”, ensina ao turista.

O realismo do filme é enfatizado pelo registro cru do cotidiano desse vilarejo litorâneo de Alagoas, pelas atuações de atores estreantes e pela simplicidade da história que usa a natureza para refletir sobre temas universais que às vezes não temos a profundidade de explorar como a morte, o tempo, a vida. Por mais banal que ela seja.

* Este texto foi escrito ao som de: Around the sun (R.E.M. – 2004)

Around the sun

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2 comentários sobre “Ventos de agosto (2014)

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