Da preguiça do carnaval

Não me recordo da última vez que vi um desfile na televisão

Não me recordo da última vez que vi um desfile de escola de samba na televisão

Claro que é rabugice minha, mas me dá uma preguiça de ficar vendo no facebook, na televisão esse mundaréu de gente suada pulando no carnaval, como se o mundo fosse acabar depois de quatro dias de festa. É bacana ver amigos soltando as feras em fantasias mais esdrúxulas e divertidas, mas meu entusiasmo acaba por aí. Está aí uma brincadeira que eu nunca me animei a brincar. Já estou velho e com o menor saco para barulheira e algazarra.

Todas as vezes que me vi metido nessas folias, foi a trabalho e tentava me manter o mais longe que podia das pessoas, subindo no trio elétrico.

Minha ideia de carnaval é bem diferente, ou seja, me enclausurar em meu quarto com os livros, filmes e muita música. E que não seja marchinha de carnaval, que eu gosto bastante, sobretudo daqueles clássicos dos tempos áureos do carnaval, mas prefiro sintonizar meu espírito em outra frequência.

E nesse retiro pessoal, pré-semana Santa, não fico rezando, esperando Jesus chegar para me salvar dos pecados que cometi. Sim, porque, como já foi dito: “Cristo morreu pelos pecados de alguém, não os meus”.

Confesso que nos meus tempos de criança eu não perdia um desfile das escolas de samba Columbinado Rio na televisão, encantado, sobretudo, com os corpos nus do mulherio e com o festival de cores dos carros alegóricos. Havia uma magia no ar que enfeitiçava minha cabeça inocente de menino, numa época em que podíamos nos deliciar com feras do carnaval como Joãozinho Trinta e suas ideias audaciosas.

Hoje em dia o carnaval do Rio de Janeiro está engessado em meio a muito dinheiro sujo, publicidade rasteira e transmissão sem tesão. Por isso que assustei meu irmão quando lhe disse que não perco o meu tempo vendo desfile das escolas de samba há anos. É que nem ficar em frente à televisão se excitando com 15 macacos enjaulados numa casa para ganhar um dinheiro do qual eu não terei um centavo.

Sem falar da promiscuidade gratuita que rola na folia. Não vamos ser hipócrita, carnaval, desde os primórdios, sempre foi associado a muita sacanagem, libertinagem e bacanal. Era quando homens e mulheres escondiam o lado mais sacana que estava adormecido dentro de cada um por detrás de máscaras e fantasias sugestivas. O cheiro de sexo pairava no ar, mas tenho a impressão de que todos esses ingredientes, no passado, e num passado do qual minha geração não fez parte, eram envolvidos em certa áurea de ingenuidade e mistério salutar.

Hoje tudo é pura sacanagem do mal, com uma exibição gratuita do corpo, exploração do sexo banal, a eterna egotrip do falo bestial, da xana vulgar. Nada parecido com a sutileza da minha musa da delicadeza, com sua máscara colorida de columbina, blusa amarelo ouro e marquinha de Sol riscando o corpo.

Enfim, resumindo, essa data do ano me dá preguiça, carnaval me dá preguiça, tédio, com vontade de sumir para uma choupana no fim do mundo, no estilo Henry D. Thoreau e o seu Walden, metido com os meus livros, discos e filmes.

* Este texto foi escrito ao som de: 20 super sucessos de Diana (1999)

Diana 3

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