Dois dias, uma noite (2014)

Atriz francesa Marion Cotillard indicada mais uma vez ao Oscar de Melhor Atriz

Depois de “Piaf”, Marion Cotillard indicada mais uma vez ao Oscar de Melhor Atriz

Sendo bem sincero? Nem me dei conta de que a atriz do novo drama dos irmãos belgas, Luc e Jean-Pierre Dardenne, Dois dias, uma noite, em cartaz na cidade, era a Marion Cotillard, simplesmente a ganhadora do Oscar de Melhor Atriz em 2007 por sua atuação na pele da diva Edith Piaf. Pior, outro dia vi Era uma vez em Nova York e, por um daqueles vacilos hediondos de cinéfilo, nem me toquei que ela era também. Ainda bem que conto com a assessoria de luxo de uma gatinha do Sul que me alertou para o deslize.

Pontuado pelo conhecido realismo humanista da dupla de irmãos, realismo este inspirado nos dramas do ídolo Roberto Rossellini e de outros diretores do neorealismo, o filme conta a história de Sandra, funcionária de um uma fábrica que vê seu emprego ameaçado pela massacrante economia opressora da União Européia. De licença do emprego, por conta de uma depressão, ela acaba de ser demitida do trabalho, mas seu chefe lhe dá uma segunda chance se, no final de semana que alude ao título, ela convencer que os amigos de trabalhos abrem mão de um bônus de 1.000 euros, em favor de sua volta.

Dois dias uma noiteA situação proposta pelo roteiro da dupla é de um artificialismo infantil, mas lá está ela, Sandra, com um pires na mão – só para citar uma imagem rodrigueana -, mendigando por seu emprego de porta em porta. “Olha, eu entendo sua situação, mas não posso abrir mão desse benefício, minha filha está na faculdade”, diz um. “Estamos construindo uma varanda em nossa casa”, argumenta outra. “Acabei de me separar, estou começando vida nova, preciso comprar mobílias novas”, explica uma terceira.

E assim, dependendo da comiseração cristã de deus colegas, é que Sandra vai sentindo, na pele, a opressão do sistema regida pelo câncer do dinheiro, a hipocrisia mercenária com que conduz cada um de nós, em maior ou menor grau. A busca pela compaixão alheia dela, apesar de piegas, pelo menos dentro da lógica narrativa dos Dardenne, deixa expor uma questão contundente nos dias de hoje. Qual é o limite da solidariedade humana diante do individualismo e competição desenfreados que impera no mundo de hoje?

Com seus grandes olhos azuis que mais parecem dois oceanos de melancolia desaguando diante da ansiosa expectativa do espectador, Marion Cotillard, completamente desnuda de maquiagem, desperta atenção pelo drama pessoal de seu personagem, daí a mais uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz, mas o tom, excessivamente meloso do roteiro pode macular um pouco sua performance.

Contudo, foi nos pequenos detalhes que o filme dos Dardenne me surpreendeu. Sobretudo porque, já acostumado com a crueza do estilo da dupla, fui pego de surpresa com a presença de uma trilha sonora nessa produção que ia desde as piegas e divertidas canções francesas a clássicos do rock como Gloria, do bardo irlandês Van Morrison. Coisa que nunca pensei que fosse ver, ou melhor, ouvir ali.

* Este texto foi escrito ao som de: Chet (Chet Baker – 1959)

Chet

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