The Smiths – A light that never goes out 3

Morrissey e a importância de ser um admirador de Oscar Wilde

Morrissey e a importância de ser um admirador de Oscar Wilde

Uma das coisas reveladoras para mim na biografia que li da banda The Smiths escrita por Tony Fletcher, A light that never goes out, é que Morrissey, além de grande fã dos New York Dolls, também é um apaixonado pelo bardo Oscar Wilde e estilo dandista do bardo irlandês de ser e escrever. Bem gozado isso porque eu ficava lendo aquelas letras pomposa, no estilo inglês antigo e achava que fosse ele querendo imitar ou homenagear William Shakespeare. O que é quase a mesma coisa, só que com dois ou três séculos de diferenças.

E um dos fatores que levou o líder e letrista da banda de Manchester a prestar atenção no autor de O retrato de Dorian Gray, foi o fato de os dois terem a mesma ascendência irlandesa. Talvez por isso, Morrissey teria começado a se espelhar no ídolo ou mesmo se deixado influenciar por ele, tomando gosto pela coisa a ponto de se mostrar tão falastrão e demasiado irônico com relação ao sistema que o cercava.

“(…) é possível que nada tenha se provado tão influente em relação à sua personalidade futura como o momento em que sua mãe, determinada a cultivar os instintos literários do filho, deu-lhe, após uma introdução de Thomas Hardy, a obra completa de Oscar Wilde”, escreve o autor. “‘É tudo o que você precisa saber sobre a vida’”, teria lhe dito ela.

O rouxinou e a rosaPresenteado antes de ingressar à escola St. Mary’s, os textos e estilo de vida de Wilde marcaram profundamente o menino Morrissey. “Wilde se tornou mais do que uma de suas obsessões, tornou-se, na verdade, seu primeiro herói de verdade, até uma espécie de modelo e inspiração”, escreve Tony Fletcher. “É uma total desvantagem gostar de Oscar Wilde, principalmente quando você vem de uma família da classe trabalhadora”, reclamaria anos depois o já consagrado Morrissey.

Uma das histórias que surpreendeu o cantor foi a do conto, O rouxinol e a rosa. A trama é marcada pela moral cínica de todas as histórias do escritor. Uma ave canora se deixa sacrificar contra um espinho a fim de produzir uma rosa vermelha para um estudante apaixonado oferecer a sua amada. Mas essa o despreza por achar que as joias dadas por outro pretendente é mais interessante. Magoado, o estudante atira a flor na estrada que é esmaga por uma carroça, concluindo: “Que coisa tola é o Amor!”.

Mais tarde, Morrissey iria expressar esse mesmo pragmatismo e iconoclastia com relação à infeliz mentira do amor em canções como Miserable lie. “As noites escuras se aproximam/E seu humor é tão negro quanto elas/Eu olho para o seu/Você olha para o meu e o ‘amor’ é só uma mentira miserável”, diz um dos trechos da canção.

E apesar de estilos de vida diferente, já que Wilde cresceu cercado de toda pompa e elitismo da high society elisabetana, enquanto que Morrissey era um autêntico filho da classe trabalhadora, os dois artistas tiveram trajetórias artísticas similares. Assim como acontecera com Wilde, que conheceu o auge da carreira num prazo fulminante de quatro anos, quando escreveu suas quatro “peças de sociedade”, mas o romance O retrato de Dorian Gray, Morrissey e sua banda só precisaram de quatro álbuns e quatro anos para conquistar o mundo. E muito da vida dos dois artistas podiam ser conferidas em suas obras.

“Coloquei toda a minha genialidade em minha vida, coloquei apenas o meu talento na minha obra”, debochava Wilde, que tal qual seu admirador, era um frasista formidável. “Ele usava a linguagem mais básica e dizia as coisas mais poderosas”, diria Morrissey certa vez, argumentando que as famosas citações do ídolo superavam a de Shakespeare porque eram compreendidas com mais facilidade.

* Este texto foi escrito ao som de: The Smiths (1983)

The Smiths

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