Timbuktu (2014)

Filme da Mauritânia traz uma realidade triste que faz a gente se envergonhar do Ocidente

Filme da Mauritânia traz uma realidade triste que faz a gente se envergonhar do Ocidente

Um dos filmes estrangeiros indicado ao Oscar, Timbuktu, representante da Mauritânia, país islâmico localizado no Noroeste da África, em cartaz bem ali no Liberty Mall, é uma produção seriíssima e perturbadora. De modo que, quando saí da sessão, me senti um merda ao saber que vivo do lado do hemisfério do planeta aonde a violência, seja ela de qual grau for, é banalizada de forma cretina.

A trama dirigida por Abderrahmane Sissako foi motivada por fatos reais e levada às telas diante da indignação do diretor com relação aos atos bárbaros promovido pelo fanatismo religioso em seu país e lugares similares que ainda insistem em viver na Idade Média. Mais do que isso. Tem a ver também com a omissão e cinismo da opinião pública que, se comove com o atentado ao jornal Charlie Hebdo, porque o incidente ocorreu num dos cartões postais mais charmosos do mundo, o centro de Paris, mas nem dão bola quando um casal é apedrejamento em Mali só porque tem um filho e não são casados.

A vida em Timbuktu, como mostra o filme de maneira bem crua e contundente, é assim. As pessoas são proibidas de cantar, ouvir música, fumar e até mesmo jogar futebol, práticas essas repelidas e lembradas diariamente por meio de um servo do islã ao megafone. As condenações por esses “crimes” vão desde o açoitamento em praça pública até a bíblica e medieval pena de morte por pedradas.

E para driblar essas convenções aberrantes a população simples de Timbuktu comete esses Timbuktu 2delitos banais às escondidas ou tratando a realidade nonsense em que vive, com rompantes líricos. É o que mostra a bela sequência do futebol, com crianças batendo uma pelada imaginária que, como bem disse um amigo meu fotógrafo, é bem melhor do que muita coisa que já foi feita no atual cinema brasileiro.

Apesar da simplicidade da narrativa, Sissako expõe questões bem complexas em seu filme como às nuances frágeis do bem e do mal no dia a dia de alguém que é conduzido pelo fundamentalismo, o papel opressor das milícias selvagens dentro dessa sociedade e a hipocrisia não apenas da opinião pública mundial diante das barbáries ocorridas em Mali e regiões similares, mas dos próprios mantenedores desse sistema. Um exemplo está no soldado do islã que julgam as pessoas por desobedecer às leis, mas fuma escondido de seus superiores e até mesmo de se companheiro de trabalho na solidão do deserto.

“Eu já tinha essa arma antes de você me conhecer”, pondera um tuaregue julgado por assassinar um vizinho que negou água a uma de suas vacas.

Um dos concorrentes a Palma de Ouro no Festival de Cannes, Timbuktu, assim como outras produções realizadas nessa região sombreada por atrasados dogmas religiosos, a exemplo do israelita Paradise now e o iraniano, Separações, merece um olhar atento não apenas da comunidade cinematográfica, mas também de toda a sociedade mundial por escancarar de forma corajosa as fragilidades e absurdos de um regime retrógrado em pleno século 21. Um lugar onde pessoas ainda vivem num contraditório sistema feudal entre vacas, dromedários e metralhadoras.

* Este texto foi escrito ao som de: Gal Costa (1970)

Gal

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