A invenção de Brasília (2001)

JK e Lúcio Costa em imagem clássica dos primórdios da cidade que faz parte do documentário....

JK e Lúcio Costa em imagem clássica dos primórdios da cidade

Formando em psicologia e mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, Renato Barbieri, desde os anos 80, se enveredou pelos caminhos do audiovisual. Começou a carreira nesse setor na televisão, participando da criação de programas como Olhar eletrônico, onde trabalhou com nomes como Marcelo Tas, Paulo Morelli e Fernando Meirelles, o diretor da polêmica e recente minissérie, Felizes para sempre? Nos anos 90, Barbieri passou a morar em Brasília e a prova de sua relação íntima com a nova capital brasileira pode ser conferida no documentário, A invenção de Brasília, que tive oportunidade de conferir outro dia no Arquivo Público do Distrito Federal.

Com narração da atriz Fernanda Montenegro e roteiro de Victor Leonardi, o filme de quase uma hora de duração, é bem simples e bastante didático em sua narrativa, mas marcante e abrangente no conteúdo histórico apresentado. Daí o fato dessa produção ser obra obrigatória em escolas de ensino fundamental.

No papel de um legítimo professor de história, Renato Barbieri – também diretor do elogiado documentário, Atlântico Negro – Na rota dos Orixás (1998) -, vai conduzindo o espectador numa agradável aula em que surpreendentes depoimentos e fatos históricos revelam que a transferência da capital para o coração do país trata-se de um sonho antigo. Sonho este anterior ao do presidente Juscelino Kubitschek, demovendo assim, aquela ideia fantasiosa e romântica de que, tal qual um faraó, JK ergueu uma cidade no meio do cerrado brasileiro do nada. Remonta o século 19, quando a Constituição de 1891, por questões de segurança, previa essa intenção, sendo que, já naquela época, seria demarcado o quadrilátero pela famosa Missão Cruls, onde hoje se situa Brasília.Invenção de Brasília

Todos esses aspectos são abordados no filme de forma bem rápida, é verdade, mas bem ilustrativa e nada superficial, é bom que se diga, ganhando um sabor de saga épica com as memórias de ilustres pioneiros, personalidades marcantes na história da cidade, como o sociólogo Darcy Ribeiro, assim como a de gente humilde que deixou sua terra natal para trabalhar nas obras conduzidas a toque de caixa pelo “comandante” Israel Pinheiro.

Filha de Juscelino, Márcia Kubitschek, numa rara entrevista, traz, em minha opinião, um dos depoimentos mais marcantes da fita, que é quando ela fala que a manifestação de carinho pelos moradores da cidade, em torno da figura de JK na época de sua morte, marcou o início da redemocratização no país.

Depois de pronta, como toda grande metrópole, Brasília vira alvo de contradições sociais e políticas, questões abordadas no filme por Renato Barbieri a partir de uma veia antropológica e, relembrando os tempos de realizador na televisão, pegada jornalística. Assim, traz à tona não apenas a riqueza cultural e sincretismo religioso promovidos pela mistura de vários povos e mentalidades, mas também o estigma da cidade da corrupção, da vida boa e do abuso de poder. Assuntos que trazem comentários sóbrios do jornalista TT Catalão e o poeta Nicolas Behr. “As pessoas que falam mal de Brasília se esquecem que muitos desses políticos que roubam não são daqui, mas de várias partes do Brasil”, ironiza Behr.

O documentário A invenção de Brasília deveria ser assistido por todos aqueles que têm uma relação de amor com essa cidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Legião Urbana (1985)

Legião Urbana Álbum

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