Ciclo – Criar com o que temos

Exposição traz trabalhos esquisitos e divertidos: deu vontade de pular nessa piscina de copos

Mostra traz trabalhos esquisitos e divertidos: deu vontade de pular nessa piscina de copos

Em 1917 o pintor e escultor francês Marcel Duchamp (1887 – 1968) deu uma sacudida no mundo das artes com a provocativa peça A fonte. A obra em si nada mais era do que um simples urinol representando, dentro da ideia de reinvenção da estética proposta pelo artista, o conceito de ready made, ou seja, a apropriação de um objeto que faz parte do nosso dia a dia para o universo das artes. Deu certo, porque, quase 100 anos depois dessa ousada recriação, artistas de várias partes do mundo insistem em surpreender o público com suas obras de vanguarda e audaciosas.

Quer ver? É só dar uma passadinha bem ali no CCBB para conferir, até o dia 20 de abril, a exposição, Ciclo – Criar com o que temos, onde 15 artistas de diferentes gerações e nacionalidades expõem os mais reveladores trabalhos desenvolvidos a partir de inusitados materiais como câmaras de pneus, palitos de dente, armas, doces, veículos, fibra de carbono e até lixo reciclado. O resultado dessa mostra, que caminha para sua 2ª edição, é surpreendente e instigante. Tudo bem, eu não entendi muita coisa, mas e daí se me amarrei pacas.

No trabalho de 2006 da norte-americana Tara Donovan, por exemplo, 700 mil copos descartáveis causam um efeito visual e sensorial hipnotizante, com a intensidade branca da obra nos fazendo lembrar algo como neve, um colchão ou até mesmo um mar de espuma. Só não pulei em cima porque tinha dois seguranças brutamontes de olho em mim.Urinol

Já o mexicano Pedro Reyes cria na obra Desarme, uma mini sinfonia pop eletrônica a partir do uso engenhoso de sucatas e peças mecânicas de aproximadamente 6.700 armas confiscadas. A mensagem é bem clara. O som da música é bem melhor e mais bonito do que o estampido de uma pistola ou espingarda.

De um cinismo constrangedor, o canadense Douglas Coupland ironiza a futilidade humana nos dias atuais construindo um enorme painel de frases reflexivas, mas não menos provocadoras. “Curtir não é votar”, diz um dos textos. “Eu sinto falta da minha memória pré-internet”, debocha em outra.

É também de Coupland um dos trabalhos mais “nojentos” e divertidos da exposição Ciclo, ou seja, a Gumhead que, como o nome indica, trata-se de uma gigantesca cabeça feita de espuma de baixa densidade, fibra de vidro com estrutura de aço aonde as pessoas vão e pregam chicletes babados. Colocado na área externa do CCBB, logo na entrada, o objeto é um dos mais visitados pelo público, sobretudo as crianças.

Bem, para um sujeito que não entende patavinas de arte contemporânea, arte moderna e vanguarda nas artes plásticas, até que me saí bem, me surpreendendo e admirando com as mais esquisitas obras oriundas dos mais diversos lugares e escolas artísticas. Mas confesso que deixei o CCBB com a pulga atrás da orelha, me perguntando, de si para si, o que afinal é arte contemporânea e elementos, enfim, quais os limites de conceito criativo? E pior, será que as pessoas que visitam exposições do tipo têm atributos ou conhecimentos artísticos, mesmo sensibilidade diante da obra desses artistas e do que eles propõem mostrar, atingir ou discutir? Eu, humildemente confesso que não tenho.

* Este texto foi escrito ao som de: Viva hate (Morrissey – 1988)

Viva hate

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