Cássia (2014)

"Quem sabe eu sou uma garotinha", Cássia Eller e o filho Chicão, em cena do documentário de Paulo Henrique Fontenelle

“Quem sabe eu sou uma garotinha”, Cássia Eller e o filho Chicão

Cássia Eller foi daquelas intérpretes capazes de roubar a cena do autor de uma música com a naturalidade de quem tira um chica bon da boca de uma criança. E notei isso quando escutei a faixa 1º julho em sua voz marcante. Escrita por Renato Russo e gravada por sua banda no último álbum da Legião Urbana, a faixa é demolidora em sua voz inesquecível. Ouça e confira. Todo mundo com os neurônios batendo normal e um pouco de sensibilidade sabe que a versão da cantora é, infinitamente, melhor. E olha que o Renato Russo é um demônio cantando também.

E mais gostoso ainda é saber que o líder daquela que á banda de rock nacional mais importante do país, escreveu a canção especialmente para a cantora, quando soube do drama dela, lésbica, de ter um filho com o músico Tavinho. “O que fazes sem pensar/Aprendeste do olhar/E das palavras que guardei pra ti”, diz um trecho da letra contundente.

CássiaMas esse detalhe importante o documentário Cássia, de Paulo Henrique Fontenelle não revelou. Mesmo assim, o filme, em cartaz na cidade, se mostra tocante, capaz de tocar, sensibilizar até mesmo aqueles que não são fã da artista. E olha que fui ver a fita ali no Libert Mall, cheio de preconceito, achando que fosse assistir mais uma daqueles documentários do gênero clichês e convencionais, mas quebrei a cara. Redondamente.

Cássia pode até ser bem convencional, mas não tem nada de clichê, e pega o espectador pelo estômago, pelo coração, mesmo, diante da simplicidade e sinceridade da narrativa que expõe os momentos mágicos e também difíceis dessa artista singular. O mais emblemático, claro, o envolvimento da cantora com drogas para conseguir vencer não apenas sua timidez crônica, mas, sobretudo, a insegurança diante dos compromissos e da pressão do sucesso.

“A verdade é que eu me sinto uma garotinha”, confessa, numa das várias entrevistas raras garimpada por Fontenelle e sua equipe.

E por falar em imagens, muitas delas são joias raras, apesar da péssima qualidade. Para quem é de Brasília, em especial, é emocionante de ver a cantora soltando a voz e tocando blues num dos palcos dono Teatro Nacional, ao lado do ator e roteirista Marcelo Saback, é puro deleite. O depoimento de Nando Reis revelando sua intimidade com a eterna parceira também são tocantes. O amor pelo filho Chicão.

Aliás, para mim, um momento bem sintomático e até revelador no filme está no caso da guarda de seu filho Chicão, que quase foi parar aos cuidados do pai mercenário e oportunista da cantora, que perdeu a disputa na justiça para Maria Eugênia, companheira de Cássia por 14 anos. O episódio resultou num dos primeiros casos de reconhecimento de um casal homossexual no Brasil. E para ver que estamos evoluindo, mesmo que a passo de tartaruga, está no fato de que, na sessão que fui, havia uma quantidade enorme de casais de gays e lésbicas assistindo ao filme. É Cássia Eller quebrando preconceitos e derrubando tabus mesmo depois de morta.

* Este texto foi escrito ao som de: Cássia Eller (1994)

Cássia Eller 2

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