Leviatã (2014)

Personagens bem construídos e cenários de desolação compões esse drama russo

Personagens bem construídos e cenários de desolação compões esse drama russo

Há uma premissa bíblica pairando o tempo todo o drama russo Leviatã, em cartaz até pouco tempo na cidade. Mas também rodrigueana, o que dá na mesma, já que as tramas de Nelson Rodrigues são bem apocalípticas. Mas o título da fita é uma referência à clássica obra homônima do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588 – 1679), no qual o terrível monstro bíblico surge como contundente metáfora para as mazelas do Estado. No caso aqui, a Rússia de Vladimir Putin.

Essa realidade é refletida na situação sufocante do mecânico Kolia (Alekseu Serebryakov), um sujeito que vive com a mulher e o filho Roma numa casa à beira mar numa pequena cidade na península de Kola, noroeste russo. O terreno é alvo de uma disputa entre ele e o prefeito da região por causa de uma disputa motivada pela ambição do estado, que quer construir ali um empreendimento milionário.

Para ajudá-lo nessa disputa judicial, o amigo e advogado Dmitri (Vladimir Vdovichenkov) se Thomas Hobbesdesloca de Moscou para uma cruzada contra o poder local, mas ao se envolver de forma imoral com a família de seu cliente, acaba contribuindo ainda mais para a ruína do indefeso Kolia, uma peça fundamental no discurso do diretor Andrey Zvyagintsev contra as injustiças e abusos de autoridade do sistema. E nesse sentido uma passagem do filme é emblemática, aquela em que Kolia e seus amigos brincam de tiro ao alvo com fotos dos grandes líderes do passado da pátria.

Vencedor da Palma de Ouro de Melhor Roteiro em Cannes, Leviatã, com seus personagens bem construídos, narrativa cheia de suspense, também fala sobre raízes, tradição, elementos que o povo russo encara de forma visceral. Kolia bem que podia fazer um acordo milionário para deixar sua propriedade para a prefeitura e recomeçar nova vida em outro lugar. Mas para ele é de vital importância, um processo orgânico, que o filho cresça no mesmo lugar em que viveu seus ancestrais. “Meus avôs viveram aqui”, diz ele em dado momento.

A paisagem desoladoramente cinza e azul do interior da Rússia contribui para evidenciar os dramas pessoais dos personagens, dramas universais da alma, é bom que se diga. É o caso do adolescente Roma, que nutre um amor secreto pela mulher do pai, a bela e sensual, Lilya (Elena Lyadova). Aliás, enigmática, ela será um dos pivores dos vários problemas em que esse grupo está metido, daí as imagens de carcaças de navios e baleias surgindo num cenário de desolação, ser perturbadoras.

“Você consegue pescar com anzol o Leviatã ou prender sua língua com uma corda?”, lança a pergunta um religioso para o atormentado Kolia, em referência a uma passagem do Livro de Jó. Poucas vezes uma passagem da Bíblia foi abordada de forma tão contundente no cinema.

* Este texto foi escrito ao som de: Acústico Cássia Eller (2002)

Acústico Cássia eller

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