Corrida sem fim (1971)

Esse road movie autêntico e bizarro de Monte Hellman é destaque de mostra no CCBB

Esse road movie autêntico e bizarro de Monte Hellman é destaque de mostra no CCBB

James Taylor, quem diria, com aquelas canções agridoces delicadas, pousando de rapaz frágil e atormentado, um dia já foi rebelde sem causa. E no velho estilo James Dean. Daí a referência a uma das cenas clássicas do filme Rebelde sem causa – aquela do racha que vai culminar num desfecho trágico -, no ultra-independente, Corrida sem fim (Two-Lane Blacktop – 1971), um dos destaques da mostra Easy Rider – O cinema da nova Hollywood, em cartaz no CCBB até 09 de fevereiro. Eu se fosse você, não perderia um filme.

Na fita, James Taylor e Dennis Wilson (Beach Boys) são dois aficionados por carros que ganham a vida participando de rachas pelas estradas da América. A bordo de um possante Chevrolet 55, eles cruzam imbatíveis por estradas de Oklahoma, Arkansas e Tennessee. Seus personagens na trama não têm nome e nem destino certo. Não sabemos de onde eles vêm e nem para onde vão. Mas isso não tem a menor importância. Basta o espectador saber que James Taylor é o motorista e que Dennis Wilson é o mecânico. E que eles interpretam dois sujeitos metidos até o osso em corridas e que correr é a vida de ambos.

“Acho que arrumamos uma esquina para correr”, é a senha da dupla quando surge uma nova competição. “É uma corrida, cara!”, grita um deles, empolgadíssimo.

Corridas sem fimE que a grande companheira desses dois cavaleiros do asfalto é a surpresa, acompanhada tanto pela presença de uma descolada hippie teenage que eles conhece num restaurante de beira de estrada (Laurie Bird), quanto de um aventureiro coroa e seu camaro amarelo que o desafiam para uma corrida até Washington D. C. valendo o carro do perdedor. “Todas as satisfações são permanentes”, ensina.

Um dos grandes outsiders do cinema norte-americano, Monte Hellman cria aqui uma das obras mais cruas da chamada “nova Hollywood”, corrente formada nos anos 70 por cineastas, atores e produtores independentes como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Robert De Niro e tantos outros.

Despido de convenções que não os inserem dentro de uma sociedade convencional e, diria, até “normal”, os personagens desajustados, junkies, ripongas e outsiders de Corrida sem fim giram em torno de um universo formatado por códigos de fáceis assimilações que o colocam à margem do sistema: vagabundos perdidos em paisagens desoladas, sem vínculos familiares e de trabalho, cercados por máquinas o tempo todo.

“Não quero saber sobre sua vida”, diz rispidamente o personagem de James Taylor, evitando qualquer tipo de vínculo entre os personagens.

E quando isso acontece, com a tensão afetiva entre James Taylor e a bela Laurie Bird, por exemplo, resulta na deterioração moral dos personagens, como mostra impactante cena final, com personagem central extravasando toda a sua raiva no pedal do carro.

Uma pena que essa obra-prima de Monte Hellman, tão intrinsecamente ligado à geração que tomou de assalto a Hollywood dos anos 70, tenha se perdido no tempo e o seu merecido reconhecimento negligenciado pela crítica e espectadores. Coube o destino fazer justiça ao cineasta ao colocá-lo na crista da onda novamente quando ele produziu um dos clássicos do cinema independente dos anos 90, Cães de alugueis, de Quentin Tarantino.

* Este texto foi escrito ao som de: Steppenwolf (1968)

Steppenwolf

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