Chique é ser brega

No Brasil ser popular é crime, visto com desdém pela crítica especializada e acadêmicos...

No Brasil ser popular é crime, visto com desdém pela crítica e acadêmicos…

Há uma grande confusão no Brasil sobre essa coisa de ser brega e ser popular. Aparentemente uma coisa está associada a outra, mas como não sou sociólogo, antropólogo ou coisa que o valha, não vou meter o meu nariz – que por sinal é muito grande -, onde não sou chamado. Prefiro resumir a questão de maneira bem simples: ter bom gosto ou mau gosto. E isso é bem relativo porque vai depender do gosto de cada um e isso é uma coisa bem pessoal. Ou seja, o que é bom para mim, não quer dizer que seja bom para você e vice-versa. Daí, meu chapa, voltamos ao começo ou melhor, não saímos do lugar.

E no meio dessa discussão patética, acaba rolando injustiças hediondas. Por exemplo, por que todos os cantores românticos são classificados de brega? Ser romântico, se apaixonar por alguém, sentir amor pela pessoa amada é ser brega? O preconceito com relação ao assunto já foi parar no Houaiss que diz o seguinte: “que ou quem não tem finuras de maneiras”. Como é que pode um treco desses?!

Digam o que quiserem, mas eu não acho que o Roberto Carlos seja um cantor brega. Pelo contrário. Ele é um romântico sofisticadíssimo. Poucos artistas no mundo falam sobre o amor, as enrascadas do coração como o Roberto Carlos. Para mim, o Robertão é o grande filósofo do tema e ponto final. E falando do Roberto Carlos, me lembrei do dia em que confessei para um grupo de amigo que gostava de Agnaldo Timóteo. Teve gente que queria sair no caratê comigo. E só porque o cara cantava coisas sentimentais como Meu grito.

No Brasil, ser popular é crime. E toma esculhambação da classe acadêmica que olha para quem faz sucesso entre as massas com um esnobismo quase infantil. Como se eles, os doutores em arrogância fossem o dono da verdade. Quer ver uma coisa? Durante muito tempo Os Trapalhões reinaram soberanamente na televisão e no cinema com um humor simples que unia estética circense e humanismo chapliano. Pois a crítica especializada e os professores cheirando à naftalina nas universidades do país inteiro viviam detonando o estilo popular do quarteto mais querido do Brasil de fazer rir.

Certa noite, um respeitado jornalista de um grande diário ligou para a casa do poeta Carlos Drummond de Andrade solicitando entrevista sobre um tema voltado à literatura. A empregada que o atendeu retornou com um recado curto e grosso do autor de versos como Uma pedra no meio do caminho.

“O seu Drummond mandou avisar que não pode atender agora porque está assistindo aos Trapalhões”, disse.

Pronto, foi o suficiente para que uma turba de críticos de narizes empinados e acadêmicos esnobes, no dia seguinte mudassem de ideia e passassem a gosta dos Trapalhões. Para encerrar essa história, uma frase quem entendia do assunto, o jornalista e colunista Zózimo Barrozo do Amaral.

“Brega é perguntar o que é chique. Chique é não responder”, resumiu.

* Este texto foi escrito ao som de: Emitt Rhodes (1970)

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