O ébrio (1946)

Adaptação de uma peça de teatro, o filme traz o cantor Vicente Celestino como protagonista

Adaptação de uma peça de teatro, o filme traz o cantor Vicente Celestino como protagonista

Produzido pelo mítico homem do cinema brasileiro Adhemar Gonzaga, O ébrio, é um marco na cinematografia nacional por vários motivos. Uma delas é que foi um dos filmes nacionais mais vistos de todos os tempos. Também porque é a fita da qual fizeram mais cópias, cerca de umas 500, segundo o último registro. Mas, sobretudo, por que foi protagonizado pelo cantor Vicente Celestino, na época, um dos grandes cartazes da música brasileira. É ele o ébrio do título que largar tudo o que tem na vida, dinheiro, família e o trabalho por ter sido traído pela mulher e parentes gananciosos.

Baseado em peça homônima de mesmo título, o filme foi o plano B de várias tentativas do produtor Adhemar Gonzaga, na época, de realizar um filme pela Cinédia. Quando o projeto foi apresentado à diretora Gilda de Abreu, então mulher de Vicente Celestino, ela o desdenhou. Mas sentindo o potencial do texto popular da montagem, que estava levando um público de Maracanã a cada sessão nos palcos, Vicente Celestino não vacilou. O cantor estava tão confiante na empreitada que, além de protagonizar a trama, também assinou o roteiro ao lado da mulher. Talvez por isso o plot de O ébrio seja tão simplista, brega até.

O ébrio 3Mas o público não estava nem aí se o filme era um autêntico dramalhão e compareceu em massa aos cinemas. E que dramalhão. Rapaz pobre do interior, Gilberto Silva (Celestino) tem o sonho de terminar o curso de medicina. Sem dinheiro, ele encontra a saída de seus problemas ouvindo o rádio, ao saber de um concurso de rádio que oferece um felpudo prêmio em dinheiro ao grande vencedor. Sem titubear, o rapaz dramatiza sua situação em versos e, lançando a sua sorte ao destino, parte para o teste que mudará sua vida.

“Vinha por este mundo sem um teto/Dormia as noites num banco tosco de jardim/
Sem ter a proteção de um afeto/Todas as portas estavam fechadas para mim…”, canta ele.

Agora com o diploma na mão e transformado da noite para o dia em ídolo do rádio, Gilberto Silva só tem a gozar uma vida de prazer e conforto ao lado da mulher Marieta (Alice Archambeau), uma enfermeira que roubou seu coração. Mas vítima de sua generosidade quase infantil, ele acaba sendo trapaceado por parentes interesseiros e falsos que forja a possível traição de sua esposa.

“Depois que eu caí você é o primeiro homem que me chama de amigo”, desabafa Gilberto, que agora vive bêbado pelas ruas, depois de trocar de identidade com um mendigo que foi atropelado.

Escancaradamente piegas, pontuado por linguajar barroco e diálogos pobres e clichês, O ébrio, restaurado em 1998 com o apoio da Rio Filmes, traz na essência elementos populares que o consagraria por anos no imaginário de milhares de pessoas. A própria presença do astro Vicente Celestino, com sua atuação empostada e por sinal bem ruim, já denuncia o caráter desse drama popular que chegou a ser comparado com a obra-prima de Billy Wilder Farrapo humano (1945). O que não tem nada a ver. Lançado no Brasil na mesma época em que O ébrio, o filme hollywoodiano trazia Ray Milland na pele de um escritor decadente bebum que se entrega ao álcool quando passa a sofrer de bloqueio criativo. Mas realista e existencial, o filme de Wilder entrou para a história como um dos clássicos do cinema, O ébrio, apenas como uma produção de sucesso de público.

* Este texto foi escrito ao som de: Canções célebres (Vicente Celestino – 1961)

Vicente Celestino

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