Vidas ao vento (2013)

Anime do mestre Hayao Miyazaki encanta pela delicadeza no uso das cores e abordagem de tema retrô

Anime encanta pela delicadeza no uso das cores e abordagem de tema retrô

Desde que realizou o premiadíssimo A viagem de Chiriro (2001), que o mestre dos animes Hayao Miyazaki vem anunciando sua aposentadoria. Contudo, de lá para cá o velhinho de 74 anos já realizou outros seis títulos, dos quais se destacam O castelo animado (2004), Pony – Uma amizade que veio do fundo do mar (2008). O mais recente de seus trabalhos e aquele que ele garante ser o último é o singelo, Vidas ao vento (2013), exibido na abertura da mostra de mangás que acontece na Caixa Cultural até próxima quarta-feira, O universo de Miyazaki, Otomo e Kon.  Quem teve oportunidade de ver, viu. Quem não viu dançou.

Na trama, cheia de referências biográficas e autobiográficas, além das clássicas e inconfundíveis características que marcam o estilo do diretor, ou seja, a defesa da natureza, papéis femininos fortes e antibelicismo, é possível notar ainda uma delicadeza sem igual que pontua aqui a trajetória de Jiro, um jovem apaixonado por aviões que sonha um dia ser projetor dessas máquinas voadoras.

Vidas ao vento 2Sonho que se concretiza ao finalizar a faculdade de engenharia em Tóquio. Mesmo período em que conhece, numa viagem de trem, a jovem Naoko. Daí em diante a história terá como fio condutor as habilidades de Jiro como designer numa empresa de avião e o grande amor dele por essa garota que sofre de tuberculose.

Sensível, Hayao Miyazaki cria nessa bela animação de época, um enredo pontuado de sonhos, sentimentos afetivos e reflexões humanistas cativantes. Sensações essas que podem ser notadas, inclusive, na predominante mistura de cores suaves que parecem na tela, com destaque para o deslumbrante verde-água, azul céu e o branco. Belíssima e não menos tocante, pelo menos do ponto de vista romântico, por exemplo, a cena em que uma doce Naoko pinta uma tela no cume de uma colina verdejante, ao lado do amante.

Como se não bastasse, o humor fino e delicado do diretor não passa despercebido aos olhos do espectador, mas são as viagens fantásticas de seus personagens, o ponto alto do filme. E é durante os vôos oníricos de Jiro com o designer italiano Caproni, sempre observados por deslumbrantes auroras, que a mensagem do filme se faz acontecer. Ou seja, que essas maravilhosas máquinas voadoras foram feitas para transportar seres humanos e não para tirar vidas.

Nascido em 1941, à sombra dos horrores da 2ª Guerra Mundial, Miyazaki cresceu aprendendo a gostar de aviões dentro de um processo até orgânico, já que sua família era dona de uma empresa do ramo. A mãe, figura feminina forte que marcaria sua vida para sempre, é lembrada de forma velada na fragilidade de Naoko e sua condição de tuberculose.

Ah, sim, e a título de curiosidade, a voz do enigmático personagem Hans Castorp é do diretor alemão Werner Herzog. Uma prova de que há bastante tempo o Ocidente tem se rendido ao talento e sutileza desse mestre da animação japonesa.

* Este texto foi escrito ao som de: Murmur (R.E.M. – 1983)

Murmur

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