Roberto Carlos em detalhes 3

O artista com a compositora Helena dos Santos, uma de suas talismãs...

O artista com a compositora-talismã, Helena dos Santos

Outro dia um amigo meu chamou o Roberto Carlos de prepotente. Ele não viu, porque eu estava do outro lado da tela do computador, mas sapateie furioso nos tamancos. Prepotente são as pessoas que julgam os outros sem conhecimento de causa. Roberto Carlos não tem nada de prepotente. Só é, como todo pop star, cheio de manias infantis. Mas nem de longe lembra, por exemplo, o doido Phil Spector. E, além de um grande artista, o rei é uma figura humana ímpar, um cara de uma generosidade singular, alguém que não sabe dizer não as pessoas e que se emociona, solidariza e envolve com as figuras mais simples que o cerca.

Foi assim, sem saber dizer não, que ele gravou e deu destaque para compositores anônimos, alguns deles hoje importantes nomes da nossa música, gente que antes de ser gravada pelo artista, era um zero à esquerda do zero, e passaram a ter o nome reconhecido pela classe.

Na biografia proibida, Roberto Carlos em detalhes, do historiador e jornalista Paulo César de Araújo, o autor revela um episódio emocionante envolvendo a compositora Helena dos Santos. Mineira de Conselheiro Lafayette e filha de lavrador, Helena dos Santos passou maus bocados na infância e quando foi para o Rio de Janeiro tentar a sorte, trabalhou como empregada doméstica. Inclusive na casa do avô de Vinicius de Moraes.

RC e Rafale BragaAo ficar viúva muito jovem, teve que se virar nos trinta para sobreviver e criar os filhos e, quando viu que não tinha para onde correr, para quem apelar, resolveu fazer uns sambinhas para ganhar a vida. E foi assim que ela entraria para música. Tentou emplacar alguma coisa com Cauby Peixoto e cantores da era de ouro de rádio, mas quando o rock chegou ao Brasil mudou de casaca e lá estava ela compondo seus twists.

A primeira tentativa de conseguir algo foi convencer um dos primeiros ídolos do gênero, o cantor galã, Sérgio Murilo, a gravar a canção, Na lua não há, uma de suas primeiras composições que acabaria indo parar no repertório de um jovem cantor que gravando o seu primeiro disco de rock: Roberto Carlos. “Eu queria ter tido uma câmera para filmar porque foi o momento mais lindo da minha vida. Roberto Carlos deixou todos os colegas, os cantores, para falar comigo”, lembra a compositora, ao se recordar da primeira vez em que falou com o jovem artista.

A partir daquele momento, até o início dos anos 70, todo disco do rei trazia uma composição de Helena dos Santos e, quando ela não tinha música para oferecer, o cantor escrevia e dava o crédito a ela. Foi o caso, por exemplo, da faixa Do outro lado da cidade, do álbum de 1969.

Outro episódio de descarada sensibilidade do rei foi quando ele soube que tinha um filho fora do casamento. O affair teria acontecido com uma fã em 1964, em Belo Horizonte, e tempos depois, o passado veio cobrar pela imprudência na figura de Maria Lúcia. Sem relutar diante do caso, Roberto Carlos, ao contrário de Pelé, aceitou fazer bem rápido o teste de DNA e quando foi revelada a verdade, ou seja, que ele era o pai da criança, imediatamente aceitou o fato e deu um jeito de reparar o erro.  A primeira coisa que fez foi dar uma pensão mensal ao novo filho e um apartamento em Higienópolis.

Mas nenhuma dessas histórias humanistas relatadas no livro me emocionou tanto como a do respeito de Roberto Carlos com o sujeito que o salvou naquele acidente em que ele teve parte da perna decepada em 1947, aos seis anos de idade, num acidente envolvendo um trem em sua cidade natal. Passado mais de 20 anos do episódio, ainda sem ser batizado, o cantor fez questão de escolher Renato Spíndola e Castro para ser seu padrinho, o que ele só fez depois de procurá-lo, num périplo incessante pelo Rio de Janeiro, para onde ele tinha se mudado.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1974)

RC 1974

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