As animações autorais japonesas

Cenas do filme "O túmulo dos vagalumes", um dos destaques da mostra

Cenas do filme “O túmulo dos vagalumes”, um dos destaques da mostra na Caixa Cultural

O fato de ter passado boa parte da minha infância vendo filmes da Disney me distanciou em quilômetros dos animes japoneses. E o pior não é nem isso, mas o fato de ter criado uma imagem equivocada desses desenhos sofisticados e existenciais. Até pouco tempo atrás, para mim, desenhos japoneses estavam associados a lutas violentas. O que era uma bobagem da minha cabaça. Foi preciso em 2001 o Hayao Miyazaki ganhar um Oscar de filme estrangeiro com A viagem de Chihiro, para eu ver com outros olhos essa cultura de animação.

Bom, para quem gosta do treco a minha dica é a mostra cinematográfica, O universo de Miyazaki, Otomo Kon, em cartaz até o dia 22 deste mês no Teatro da Caixa Cultural. Estive ontem lá no espaço para conferir a abertura e confesso que subestimei o público que cultua esse estilo de animação porque simplesmente tinha gente escorrendo das paredes, pingado dos lustres.

Também não é por menos. Ao contrário do grosso do que vem sendo feito por aí no cinema japonês do gênero, com os filmes cada vez mais voltados para atender as séries de televisão e a indústria de brinquedos, os três cineastas homenageados em questão representam o creme de la creme desse estilo de desenho, com uma pegada fortemente autoral e existencial.Vidas ao vento

Tal estilo já pode ser conferido pelos fãs no drama, Vidas ao vento, o trabalho mais recente do mestre Miyazaki exibido na abertura da mostra. Na trama, as aventuras e desventura do jovem Jiro, um menino apaixonado por aviação que se transforma num grande gênio no designer de aviões modernos. Aqui, a postura anti-bélica do diretor, que desde pequeno tem uma ligação muito forte com aviões, bem clara. O humanismo que exala na figura do jovem sonhador Jiro é algo comovente.

Aliás, uma das características das animações japonesas é a escolha de temas adultos contundentes. Noutro filme exibido na mostra, com direção de Isao Takahata, O túmulo dos vagalumes, dois irmãos do pós bomba atômica tentam sobreviver em meio ao caos, à fome e falta de generosidade entre os humanos. No anime Akira, do mestre Katsuhiro Otomo, por exemplo, um clássico dos anos 80, a violência em cena é perturbadora.

E as particularidades não param por aí. Marcados por traços artesanais, mesmo com o apoio da tecnologia, os filmes desses três autores se notabilizam por criar personagens com personalidades fortes e intensas. Daí o contraste com os enredos líricos das produções da Disney, quase sempre voltadas para crianças e família.

* Este texto foi escrito ao som de: The Smiths Best… I (1992)

The smiths I

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