As novelas da minha infância

o surfista descolado Gaspar e o seu rebanho de ripongas à beira-mar...

o surfista descolado Gaspar e o seu rebanho de ripongas à beira-mar…

Um amigo ontem andou reclamando de uma fala preconceituosa, boçal e fútil da novela das 8 da Globo. Pior para ele que perde tempo assistindo essas bobagens que já foram boas. Sim, porque acredite, sou de um tempo, meu chapa, em que a teledramaturgia brasileira era a melhor do mundo, dava gosto de assistir. E olha que peguei a rapa do tacho, vamos assim dizer. E para aqueles que pouco me conhece, duas revelações bombásticas: gosto de música brega e no passado fui um noveleiro incorrigível, daqueles que não perdia um capítulo e, quando isso acontecia, dava chiliques que nem uma bailarina espanhola.

Também queria o quê? Eram os tempos de Janete Clair, Dias Gomes, Cassiano Gabo Mendes, Ivani Ribeiro Gilberto Braga e por aí vai. Hoje em dia só tem bofera fingindo que escreve alguma coisa e às vezes me flagro vendo trechos de um capítulo aqui e acolá das novelas atuais e fico com pena de quem perdeu os tempos áureos da novela brasileira. É triste ver bons atores da época de ouro da televisão brasileira, astro que contribuíram para alimentar o imaginário de milhares de pessoas no país inteiro sendo negligenciados por tramas inócuas, insípidas e pretensiosas. Mas é aquela velha história, vão os anéis ficam os dedos.

E olha que ao escrever sobre os meus tempos de noveleiro me deu uma saudade enorme das grandes novelas que marcaram minha infância. Puxa vida, que saudade! Tramas inteligentes, atuações impecáveis, reflexões contundentes e pertinentes sobre a realidade brasileira, enfim, tudo embalado numa garantia certeira de bom entretenimento e prazer garantido. Ainda bem que hoje temos o Canal Viva.

E claro, tive várias musas na televisão. Maitê Proença com seus faiscantes olhos verdes era uma dela. Lúcia Veríssimo veja você, também. Elizabeth Savalla, com aquele ar de ingênua fatal a la Louise Brooks também. Daí teve a Christiane Torloni, Bruna Lombardi, Lídia Brondi, Carolina Ferraz, Giulia Gam, Cláudia Abreu, Alessandra Negrini, Simone Spoladore…

A seguir, o Top Five de cinco telenovelas marcantes em minha memória por ordem de predileção…

A gata comeuRoque Santeiro (1985) – Talvez de longe a melhor novela brasileira de todos os tempos com seus tipos inesquecíveis e situações absurdas, traz um texto impecável e inspiradíssimo de Dias Gomes numa trama em que o mocinho o tempo todo se passar por bandido e vice-versa. A maneira cínica em que o autor debocha de totens sagrados da sociedade como a igreja, a família e o casamento é impagável. No auge da carreira, Regina Duarte se reinventou na pele da inesquecível Viúva Porcina e Lima Duarte foi o vilão mais querido do país. O final, fazendo uma brincadeira com o clássico Casablanca, vai entrar para a história. Gostava do drama no romance entre o padre Albano e a lindinha filha de Sinhozinho Malta, Tânia (Lídia Brondi).

Vale tudo (1988) – Quem matou afinal Odete Roitman? Era a pergunta que não queria calar e parou o Brasil. Enquanto esse desfecho não seria solucionado, vivíamos os dramas shakespeareano entre a batalhadora Raquel Accioli (Regina Duarte) e sua filha mau-caráter Maria de Fátima (Glória pires, em atuação marcante). Elegante, Gilberto Braga recheava suas tramas com subtemas polêmicos como alcoolismo, homossexualismo e corrupção.

A gata comeu (1985) – Um remake da novela A Barba-Azul também escrita por Ivani Ribeiro em 1974, tinha como enredo central uma espécie de versão moderna e coletiva do drama do personagem Robinson Crusoé, criado pelo escritor inglês Daniel Defoe, com o núcleo central da trama perdido numa ilha deserta por dois meses. Era um charme as brigas orgulhosas entre professor Fábio (Nuno Leal Maia) e a arrogante ricaça Jô (Christiane Torloni). Foi nessa novela que virei fã de José Mayer e sua beleza estilo Humphrey Bogart.

Top Model (1989) – Foi onde eu escutei Hey Jude pela primeira vez e me apaixonei pelos Beatles, mudando minha vida para sempre. Difícil não se apaixonar e encantar pelo viúvo descolado Gaspar (Nuno Leal Maia) e seus filhos fofitos. Na, na, na, na, na…

Vereda tropical (1984) – Ficaria marcando para sempre em minha memória a acolhedora cantina da italianíssima Dona Bina (Geórgia Gomide) e seus três filhos abilolados: Paulo Guarnieri, Paulo Betti e Mário Gomes, esse último encarnando o carismático e raçudo jogador de futebol Luca. Quem não se lembra de seu tema marcante escrito por Luis Bandeira: “Que bonito é…/Ver um samba no terreiro/Assistir a um batuqueiro/Numa roda improvisar…”.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos (1981)

Roberto Carlos - 1981

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