Curitiba Zero Grau (2010)

Na fita Jackson Antunes é um motorista de ônibus solidário e humano

Na fita Jackson Antunes é um motorista de ônibus solidário e humano

Realizado em 2010, o drama Curitiba zero grau só chegaria aos cinemas do país dois anos depois e, quando isso aconteceu, nem senti o cheiro da fita no ar porque, fazendo o caminho inverso da dificuldade de se realizar um filme no Brasil, logo, logo o projeto sairia de cartaz. Uma realidade triste que só não seria pior porque temos o Canal Brasil para suprir essa deficiência crônica de distribuição e exibição no cinema brasileiro.

Dirigido por Eloi Pires Ferreira, a trama lembra na essência aqueles contos natalinos ingênuos escritos pelo inglês Charles Dickens ao contar a trajetória de percalços e surpresas de quatro personagens de estilos e condições de vidas díspares presente no cotidiano da capital paranaense. A estrutura narrativa lembra o filme Babel, do mexicano Alejandro Iñárritu, aonde as histórias vão entrando uma dentro da outra no relato da rotina de gente como o empresário Jaime (Edson Rocha), que se meteu numa furada nos negócios e agora tem que tentar sair dessa roubada de qualquer jeito senão poderá levará a firma à falência.

Ele terá que fazer a escolha pelo caminho mais fácil, contudo cheio de artimanhas escusas, ou se embrenhar pelo jeito mais honesto, colocando em cheque sua moral e até bem estar físico. Em meio a essa fase complicada de sua vida profissional, ainda tem os desajustes domésticos no conturbado conflito de gerações travado com os filhos.

Um drama pessoal que não parece muito diferente do jovem motoboy Márcio (Diego Curitiba zero grauKozievitch), que rala de sol a sol em cima de uma moto pelas ruas da metrópole entregando pizza para garantir a pensão da filha que só pode ver uma vez por semana. O desespero bate e, sem se dar conta, lá está ele chorando debaixo de chuva, na esperança de um caminho mais digno para e sua pequena herdeira.

E sem que Márcio se dê conta, esbarra todos os dias pela urbe com o motorista de ônibus Ramos (Jackson Antunes), um apaixonado pela profissão que, num dia de volta para casa como outro qualquer, se depara com uma família inteira do interior do Paraná perdida e abandonada no meio da rua. Eles só têm em mãos um bilhete molambento com o endereço pela metade do irmão e não sabem como chegar ao paradeiro do familiar. Até que encontrem uma saída, são convidados, para espanto da mulher de Ramos, a passar uns dias em sua casa.

“E você queria que eu fizesse o quê, mulher? Que deixasse eles no meio da rua, ainda mais com esse frio que está fazendo? Eles vão ficar na garagem, no porão em qualquer lugar”, bate o pé, categoricamente.

Catador de lixo, o “carrinheiro” Tião (Lori Santos) é a cara da pobreza pelas ruas de Curitiba, mas ganha seu suado dinheiro de forma honesta, puxando seu carro cheio de entulhos, até o dia em que o filho fica doente e, sem dinheiro para comprar remédio, está prestes a perder a cabeça.

Apesar da premissa simplista, até piegas, o diretor Eloi Pires Ferreira consegue passar o recado, sem o ranço das produções da Globo Filmes, nessa crítica urbana com sabor de moral bíblica por meio de quatro histórias tristes e comoventes que poderiam acontecer em qualquer parte do Brasil. Histórias essas que cospem na cara do espectador as mazelas e injustiças sociais do país, mas também bons exemplos de solidariedade e até esperança.

* Este texto foi escrito ao som de: Solta o pavão (Jorge Ben – 1975)

Solta o pavão

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