As pinceladas anárquicas de Don Pepe

Uma das paisagens predominantes da obra do gaúcho Érico Veríssimo

Uma das paisagens predominantes na saga “O tempo e o vento”, do gaúcho Érico Veríssimo

É com muito orgulho que vou virar o ano lendo um de meus escritores mais queridos, o gaúcho Érico Veríssimo. Enquanto tem gente que gosta de exibir suas vaidades materialistas, eu me mostro todo pimpão com pequenos e prazerosos detalhes culturais como a leitura de um bom livro. E ler Érico Veríssimo é um estado de espírito, um êxtase indescritível. Algo tão saboroso como tomar um bom vinho ou comer um prato delicioso. Além da narrativa cinematográfica, diálogos divertidos, situações inusitadas, descrições flamejantes acerca de qualquer assunto, a construção dos personagens que o autor faz, com todas as suas contradições humanas e sociais, são fantásticas, formidáveis.

Agora mesmo estou apaixonado pelo pintor espanhol rabugento, Don Pepe, um autêntico anarquista no passado que agora amarga dias de boemia pelas ruas da pequena Santa Fé, vomitando sua indignação contra os excessos mundanos da burguesia e a hipocrisia do clero. “Filisteus!”, diz, começando uma conversa com bravatas e as terminando em prantos.

O retrato 2Nos volumes 1 e 2 de O retrato, da saga O tempo e o vento, o artista espanhol é figura de vital importância, não apenas por fazer parte do cotidiano político e social da cidade, mas por ser o autor do famoso retrato do jovem médico Rodrigo Cambará, pintura que se tornaria a grande sensação da cidade, admirada como obra-prima tanto pela beleza estética, quanto pela força espectral de seus traços. A descrição do escritor diante do furor causado pela tela não apenas pelo retratado, mas por todos os moradores da cidade é bárbara.

“Ao ver a própria imagem na tela, Rodrigo sentiu como que um soco no plexo solar. Por um momento a comoção dominou-o, embaciou-lhe os olhos, comprimiu-lhe a garganta, alterou-lhe o ritmo do coração. Quedou-se por um longo instante a namorar o próprio retrato”, narra.

Alvo de romaria no Sobrado, a impecável pintura de Don Pepe arrancaria as mais inusitadas reações dos visitantes. De alguns surpresos, lhes calou a boca. “Nunca imaginei que esse espanhol fosse capaz de fazer uma coisa séria assim… Sempre o considerei um farsante, uma personagem de opereta”, admite um oficial esnobe. Embasbacada diante da imagem do futuro marido, a jovem e ingênua Flora mirou a figura por tanto tempo e com tamanha expressão de ternura que arrancaria ciúmes do amante. “Nunca pensei que fosse ficar tão bem assim”, declara encantada.

Atirada, moça de muitas leituras e antenada com as novidades da vida, a impertinente, Mariquinhas Matos, para desespero da mãe conservadora e antiquada, não se conteve: “Um rapaz bonito como o Dr. Rodrigo não devia se casar nunca. É muito homem para uma mulher só”, dispara.

Mas o talento endiabrado com os pincéis do pintor espanhol Don Pepe seria capaz de proezas mais impactantes como a de arrancar sorriso do taciturno, amargo e sistemático Licurgo, pai de Rodrigo. Ao mirar, enigmaticamente a tela, o patriarca sorrir e dizendo:

– Está muito bom. Quanto vai pagar pro castelhano?

– Não sei ainda, papai. Qual é a sua opinião?

– Pague bem. O quadro vale. Dê quinhentos mil-réis.

Até os mais aparentemente insensíveis são capazes de apreciar o belo.

* Este texto foi escrito ao som de: Picassos falsos (1987)

Picassos falsos

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