Êxodo – Deuses e Reis (2014)

Moisés de Ridley Scott é militar e cheio de dúvidas metafísicas...

Moisés de Ridley Scott é um militar vingativo cheio de dúvidas metafísicas…

Todo bom cristão que se preza está cansado de saber que a Bíblia é recheada de boas histórias. Até porque, reza a lenda de que o povo de Deus, os hebreus, eram bons contadores de histórias. Não é o caso de Êxodo – Deuses e Reis, saga bíblica do inglês Ridley Scott em cartaz no mundo inteiro neste Natal. Deve ser porque ele não é judeu. Com sua habitual mania de grandeza e megalomania, o diretor de sucessos como Blade Runner e Gladiador acerta em cheio ao brindar o espectador com eloquentes espetáculos visuais, mas desaponta ao, digamos, não manter a fidelidade da história, tal qual nós estamos habituados a conhecer.

Tudo bem que eu, um ateu matusquela convicto corro o risco de ser taxado de conservador, mas e daí se minha grande referência sobre a trajetória do patriarca Moisés e as tábuas divinas ainda continua sendo o clássico, Os dez Mandamentos, aquele com o Charlton Heston dirigido em 1956, pelo faraó de Hollywood, Cecil B. DeMille?

Assim, ao sair da linha no que diz respeito ao enredo, Ridley Scott transformou sua aventura no deserto numa reprise da chatice pretensiosa que foi o recente, Noé, de Darren Aronofsky. Enfim, como andam mal de representantes no cinema de hoje esses profetas da Bíblia! E nem me venha com essa balela de que há erros históricos imperdoáveis e alusões êxododescabidas sobre o conflito Israel-Palestina por que, é sabido que Cecil B. De Mille alterou muito da história factual só para tornar a narrativa de sua versão mais atraente e o que está sendo julgado aqui é justamente isso, ou seja, a excelência do espetáculo em detrimento da narrativa ou vice-versa.

A primeira metade de Êxodo – Deuses e Reis é vibrante, com suas sequencias de guerra e batalha que só o diretor inglês sabe filmar. Preste atenção na plasticidade da cena em que flechas voadoras egípcias atingem o inimigo logo nos primeiros minutos da fita. Na releitura épica de Ridley Scott da Diáspora, o sombrio Egito do faraó Ramsés (Joel Edgerton) ganha ares de Roma de Cleópatra, sem o visual clean dos épicos do passado. Os personagens também têm características próprias bem diferentes. O Moisés (Christian Bale) de Ridley Scott – que dedicou o filme ao irmão Tony Scott, morto recentemente ao cometer suicídio -, surge mais vingativo e cheio de dúvidas. É um general recrutado por um deus-menino arrogante e indeciso para fugir com seu povo do Egito, mas ele mesmo não tem muita certeza de como e nem quando isso irá acontecer.

“Ele perdeu a cabeça encontrando um Deus”, ironiza um Ramsés repleto de ironia vivido pelo ótimo australiano Joel Edgerton.

Da segunda metade da trama até o fim, a narrativa do filme cansa o espectador com a modorra em que as famosas passagens bíblicas das sete pragas e a travessia do Mar Vermelho são narradas, essa última de uma decepção constrangedora. Mas como se vê, se nem Cristo conseguiu agradar todo mundo, o que dizer do semideus do cinema Ridley Scott.

* Este texto foi escrito ao som de: Automatic for the people (R.E.M. – 1992)

Automatic for the people

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