Será o espírito natalino?

“Felizes aqueles que choram, porque um dia, serão consolados”, (Sermão da Montanha)

“Felizes aqueles que choram, porque um dia, serão consolados”, (Sermão da Montanha)

Não gosto do Natal. É uma data que me traz recordações tristes. Fora isso, tem o fato de não me inspirar nenhuma confiança porque é uma comemoração que despertar nas pessoas um sentimento que abomino terminantemente: a hipocrisia. É aquela tal história, o sujeito apronta o ano inteiro e num único dia quer redimir os pecados de todo o ano com uma simples oração ou gesto de caridade. Daí me vem aquelas cenas clichês de fim de ano com gente fantasiada de Papai Noel, distribuindo brinquedos para crianças pobres nos mais longínquos buracos e que, de tão patéticas, me fazem chorar. Por isso que sou pecador o ano inteiro e com muito orgulho, me dando por satisfeito com o meu lugar já reservado lá no inferno, que é para onde eu vou quando minha passagem por aqui chegar ao fim. Garanto que será um lugar mais divertido do que essa bagunça aqui em cima.

É deprimente ver dondocas de nariz empinado que mal conversam com seus próximos quando estão desfilando pelas passarelas da vida, sempre olhando com indiferença os mais pobres e simples, tratando com asperezas os mais humildes, mas que quando chega o fim de ano, estacionam seus carangos espaciais em portas de asilos, creches e igrejas com doações nababescas.

caridade 2Outro dia, fazendo caminhada bem ali ao redor da Igreja São Francisco, um terreno gigantesco, de quarteirão inteiro, que pertence ao Vaticano, eu vi um grupo de freiras jantando com adolescentes carentes, ex-dependentes de drogas num restaurante chique. O mais chique da cidade. Bem, a cena era bonita, tocante e não sei se foi uma iniciativa das irmãs franciscanas ou do proprietário do restaurante, mas a pergunta que faço é: por que eles esperam o Natal chegar para consumarem esse ato de humanismo e fraternidade? Era um gesto que deveria ser repetido mais vezes durante o ano.

Para mim, a ideia de caridade é aquela exibida pelo personagem Rodrigo Cambará na saga O tempo e o vento, do mestre Érico Veríssimo. É só ler a história e entender o que digo.

Bem, não sei se foi por causa do anjo do Senhor ou esse tal de espírito natalino, mas um dia desses, numa semana só, fui protagonista de duas cenas tristes que me marcaram de forma contundente a maneira de ver as coisas. Ia eu saindo de carro para levar minha sobrinha ao futebol, quando de repente a vizinha me gritou desesperada, pedindo, “peloamordedeus”, ajuda! Pensei que ela tinha sido assaltada novamente por trombadinhas da rua, mas era para eu ajudá-la a colocar sua mãe, vítima de derrame, na cadeira de rodas. Quando cheguei lá a cena era desoladora. Com seus mais de 80 anos, a senhora, sentada no chão, se apoiando na cadeira de rodas, exibia um olhar de abandono e assustada carência que fizeram meu coração chorar. Com muito esforço a colocamos no lugar e saí de lá com alma pesada de tristeza.

Cena 2. Na rua de casa, há um jovem rapaz soropositivo que recentemente sofreu um acidente de carro que o deixou paralítico. O político para quem ele trabalhava, na hora em que ele mais precisava lhe deu as costas e escafedeu sem prestar assistência. Gay, pobre e aleijado, esse vizinho doente vive meio que abandonado à míngua por alguns familiares e inclusive por pessoas que não saem da Igreja gritando palavras de fé, amor ao próximo e humanismo. E me pergunto que raio de fé, humanismo e amor ao próximo são esses que fazem essas pessoas que não saem da igreja rejeitar quem mais precisa num momento de maior necessidade?

Enfim, depois de deixar o carro na oficina, ia eu passando em frente à casa do jovem rapaz, a pé, quando o homem da fisioterapia que o apanha todos os dias para sessões, me gritou para ajudá-lo colocar no banco de passageiro da ambulância. E assim, lá fui eu, com o coração na mão, já antecipando a comiseração que sentiria diante da cena. Magro de dar dó, olhos fundos, sonda dependurada no colo, mas ainda exibindo uma disfarçada esperança no sorriso, o sujeito moribundo me agradeceu efusivamente. Resumindo. Venci os poucos metros que me faltavam até em casa com lágrimas escorrendo pelo rosto.

E foi assim, não sei se por causa de um anjo do Senhor ou esse tal de espírito natalino, que em menos de uma semana, senti meu coração pesar com uma tristeza angustiante e alma mais cheia de buracos do que um queijo suíço. Está lá no Sermão da Montanha: “Felizes aqueles que choram, porque um dia, serão consolados”.

* Este texto foi escrito ao som de: Ultimate Gospel (Elvis Presley – 2004)

Elvis - Ultimate Gospel

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2 comentários sobre “Será o espírito natalino?

  1. Feliz Natal 🎅 querido amigo! Muito lindo seu texto e sua reflexão tão humana. Somos budistas e dessa forma entendemos que as causas positivas que fazemos devem ser um ato constante de consciência. Grande abraço e Nam Myoho Rengue Kyo.

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