O signo do caos (2005)

'Vamos tirar o cinema do quarto de brinquedo", diz o censor do filme.

‘Vamos tirar o cinema do quarto de brinquedo”, diz o censor do filme.

Vi O signo do caos, último filme do mestre Rogério Sganzerla, em ocasião especial. Foi na edição do Festival de Brasília de 2003, quando o cineasta, já debilitado por um câncer, assistiu à sessão ao lado da mulher Helena Ignez e as duas filhas gatíssimas: Sinai e Djin, essa última, minha musa. Depois não me lembro mais de ter visto a fita novamente. Só outro dia, ali no Canal Brasil, em função de uma mostra realizada em homenagem ao diretor de obras-primas como O bandido da luz vermelha (1969) e Sem essa, Aranha (1970).

De um pessimismo sem igual, O signo do caos mais uma vez retoma ao tema-obsessão da carreira do diretor que era recontar, de uma maneira bem particular, os imbróglios em torno do fracasso de Orson Welles em filmar no Brasil de Getúlio Vargas na década de 40.

Aqui, as fitas do que seriam esses registros perdidos do cineasta norte-americano são retidas na alfândega e só serão liberadas depois de passar pela censura. O chefe do departamento vivido pelo ótimo Otávio Terceiro tem um nome mais do que sugestivo: Dr. Aminésio. “Vamos tirar o cinema do quarto de brinquedo”, avisa numa das fases mais famosas do filme-signo. “O cinema brasileiro sempre foi um caso de polícia”, provoca.

Frases clichês, ditos populares, situações bisonhas e esdrúxulas repetidas várias vezes, Signopropositalmente, numa montagem ágil e esperta, avisam o tempo todo da incompetência, burocracia e burrice na qual o cinema nacional tem sido vítima nos últimos anos. “Vou abrir a barriga do Brasil para ver o que tem dentro. Será um cinecídio”, continua provocando Dr. Aminésio, com seu gosto sádico por desprezar a cultura nacional.

O clima noir da primeira parte, filmada com estilo, só ressalta essa premissa numa narrativa sufocante e, quando chega a segunda parte, com suas cores explosivas, é gostoso de ver o visual e estética deslumbrantes dos filmes holywoodiano dos anos 40 e 50. Numa espécie de homenagem-referência, Sganzerla reproduz em cena algumas passagens clássicas de Cidadão Kane, a obra-prima de Orson Welles, assim como signos importantes da fita que o transformou no grande gênio do cinema que foi, entre elas o segredo rosebud, mas detalhes perceptíveis somente aos olhos dos cinéfilos mais atento.

A trilha sonora, como na maioria dos trabalhos de Sganzerla, é um personagem sensorial a parte e aqui vai desde o jazz mais sofisticado ao samba clássico da era de ouro do gênero, passando pela música flamenca.

Com exceção de Giovanna Gold e Camila Pitanga, todo o elenco de O signo do caos é feito por rostos desconhecidos, uma marca indelével do cinema de Sganzerla e todos os que rezaram na cartilha do cinema marginal, um pormenor que passa despercebido, tendo em vista que, em suas produções, o texto, o discurso caótico era sempre o ator principal em cena.

* Este texto foi escrito ao som de: Gilberto Gil ao vivo (1974)

Gilberto Gil 1974

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