Mussum forévis – Samba, mé e Trapalhões

Sucesso de Mussum é a prova de que ser pobre e negro no Brasil não é desculpa para vencer na vida

Sucesso de Mussum prova que ser pobre e negro no Brasil não é desculpa para vencer

Depois de seguir carreira como militar e estourar como músico no grupo Os originais do samba, Antônio Carlos Bernardes Gomes, o nosso eterno Mussum, resolveu apostar as fichas como humorista ao ser convidado por ninguém menos do que Chico Anysio para fazer parte da remontagem de um grande sucesso das rádios para a televisão: o quadro, A escolinha do Professor Raimundo. Inseguro, o mangueirense disse que só topava a empreitada se o mestre do humor brasileiro criasse um tipo com falas curtas e simples. E o grande comediante não vacilou:

– Olha, crioulo, você tem três expressões para ganhar a vida: tranquilis,como di factis e não tem problemis.

Pronto, nascia assim o mais famoso dos tipos malandros já inventados no humor brasileiro com seus trejeitos e maneirismos inesquecíveis, caretas inconfundíveis e vocabulário para lá de próprio que revelava sua paixão pela birita ou simplesmente o famigerado mé. Tal história um sundae de divertida é contada na biografia, Mussum forévis – Samba, mé e Trapalhões, do jornalista Juliano Barreto. De tão leve e divertido que é o livro que você ler assim, num vapt vupt. Eu mesmo não demorei uma semana para ganhar as páginas da edição lançada pela editora Leya. E as passagens são tão saborosas que servem de munição para o leitor reviver no Youtube os melhores momentos do personagem.

Mussum cacildsUm dos integrantes da trupe de humor de maior sucesso da televisão brasileira, Os Trapalhões, que também reinaram soberanos nas bilheterias do cinema, Mussum é a prova mais do que irrefutável de que ser pobre e negro no Brasil não é desculpa para vencer na vida. E ele veio, viu e venceu.

Filho de uma batalhadora doméstica que criou sozinha os filhos, o comediante, como mostra o livro, sempre carregou consigo dois ingredientes determinantes para se dar bem na vida: a simpatia contagiante e a alegria inabalável. Com muito empenho e dedicação, Mussum, por exemplo, ainda criança, conseguiu uma vaga na respeitada Fundação Abrigo Cristo Redentor, instituição com inspiração militar criada na Era Vargas, e dali para a Força Aérea Brasileira (FAB), seria um pulo, onde ganharia um de seus primeiros apelidos: pé de rodo. Aliás, foi Grande Otelo o responsável pelo codinome que o eternizaria para sempre no inconsciente de marmanjos e crianças de todo o país.

O surgimento da trupe trapalhônica que virou mania nacional é narrado pelo autor com detalhes riquíssimos, revelando, entre outras coisas, a sugestão de Didi e Dedé para chamar um negro para o grupo inspirada nas séries norte-americanas. E toda vez que o jornalista conta os momentos marcantes de Mussum nos Trapalhões apresenta um pouco de passagens reveladoras do quarteto, mas seria mais interessante se o jornalista guardasse as opiniões sobre a qualidade do humor do quarteto mágico para as rodas de boteco, que foi aonde a ideia para esse projeto nasceu.

Contudo, é a história de Mumu da Mangueira com a música a parte mais deliciosa do livro. Estão ali registrados de forma divertida os primeiros passos do artista no sagrado terreiro da Estação Primeira de Mangueira, os bastidores do surgimento dos Originais do Samba, ou seja, os anos de dificuldade, o empurrão dando por padrinhos da MPB como Martinho da Vila, Jair Rodrigues e Jorge Ben Jor, até a escalada do grupo rumo ao sucesso no Brasil e no exterior.

Morto em julho de 1994, aos 53 anos, depois de não resistir a uma cirurgia de transplante de coração, o músico e comediante seria enterrado em São Paulo, no Cemitério de Congonhas, no mesmo jazigo onde estão sepultados também outros amigos dos Os originais do Samba, por coincidência na quadra 51. Até na hora de se empirulitar o nosso querido Mussum nos faz rir.

* Este texto foi escrito ao som de: Os Originais do Samba (1969)

Os originais do samba

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