Miss Violence (2013)

Essa cena de álbum de família é só um dos vários truques do cineasta Alexandres Avranas

Essa cena de álbum de família é só um dos vários truques do cineasta Alexandres Avranas

Acho que o último filme grego que vi foi O tempero da vida (2005), que nem é tão grego assim, mas uma co-produção turca. De qualquer forma, esse jejum foi quebrado outro dia quando vi, ali no Libert Mall, o drama Miss Violence, um filme, digamos assim, assustador. E não porque se trata de um thriller de terror, muito pelo contrário, mas por trazer de forma constrangedora natureza macabra dos personagens em cena, mas isso é algo que você espectador terá que descobrir sozinho e tirar as próprias conclusões.

A trama tem início com a festa de aniversário de 11 anos de Angeliki, da qual participam os avôs, as irmãs, uma tia e a mãe. E o pai? Enfim, todos animados com chapéus característicos na cabeça e ar de alegria nos rostos, nem se dão conta quando a aniversariante sobe na sacada, lança um sorriso maroto para a câmera e despenca de lá. Chocado? Então espere para ver porque ela fez isso.

Destaque do Festival de Veneza do ano passado, esse filme chocante do grego Alexandres Avranas é de arrepiar os cabelos. Desnuda com frieza calculada e suspense premeditado, quase sádico, o lar de uma família aparentemente normal. Mas tudo não passa de esmalte e logo a podridão vai aparecendo diante dos olhos do espectador. A surpresa é incômoda e o silêncio na sala de cinema maior ainda. “Nesta casa não temos nada a esconder”, diz o austero e severo patriarca da casa quando a filha caçula tranca a porta.Miss violence 2

Como num intricado quebra-cabeça, aos poucos pequenas pistas vão surgindo em cena, como uma paquera da vítima se gabando na escola de ser a causa da brusca atitude da jovem, uma visita ao ginecologista, atrasos no trabalho e  favores escusos entre amigos. Cheio de sutilezas e elipses narrativas, o diretor tem o domínio do suspense o tempo todo e parece brincar com a curiosidade, sadismo e franquezas do espectador.

Há quem possa reclamar que o diretor tenha revelado se não toda a essência da trama, mas parte dela logo nos minutos iniciais, mas isso é uma bobagem, ou melhor, estratagema narrativo, como bem revelou o mestre Gabriel García Márquez no formidável, Crônica de uma morte anunciada.

Até porque, quando a verdade vem à tona, com os segredos revelados, um clima de hipocrisia, imoralidade e omissão pairam no ar pegando o espectador de surpresa e causando asco e vergonha de sermos o que somos de pior, ou seja, simples seres humanos. Alardeado pela crítica européia como uma ruidosa metáfora sobre a crise econômica mundial vivida pelo país, recentemente, Miss Violence é mais do que isso. Uma vergonhosa radiografia da humanidade.

* Este texto foi escrito ao som de: Different gear, still speeding (Beady Eye – 2011)

Beady Eye

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