São Paulo S/A (1965)

Walmor Chagas e Eva Wilma tendo ao fundo a grande metrópole como coadjuvante

Walmor Chagas e Eva Wilma tendo ao fundo a grande metrópole como coadjuvante

Impressionante como a memória da gente nos trai. Tinha jurado que me lembrava de São Paulo – Sociedade Anônima, primeiro filme de Luís Sérgio Person realizado em 1965 que vi na época de estudante da faculdade. Pois bem, revi o filme outro dia, depois de ver um amigo dando aula tendo a fita como tema e, ledo engano, não me recordava de quase nada do filme, a não ser poucas passagens e diálogos.  O que por um lado foi muito bom já que a sessão, altas madrugadas, não deixou de ser impactante.

Realizado 14 anos antes do relicário afetivo Manhattan, de Woody Allen, o filme brasileiro traz também como premissa narrativa a cidade como metáfora para os anseios, motivações e angústias humanas. Uma relação mostrada aqui de forma histórica e social dilacerantes, já que estamos no final dos anos 50, quando a euforia desenvolvimentista soprada pelo governo JK, se materializa no boom da indústria automobilística brasileira, tendo como principal pólo a metrópole São Paulo. “Uma terra de gente que trabalha, o motor do Brasil”, como diz, eufórico, o italiano Arturo (o ótimo Otello Zeloni).

Ele é o desonesto dono de uma autopeça em que trabalha o ambicioso e esforçado CarlosSP SA (Walmor Chagas, em seu primeiro papel no cinema e já se mostrando elegante e imponente em cena), um sujeito que acaba de trocar o Rio de Janeiro por São Paulo em busca, como muitos em sua situação, de perspectivas melhores de vida, dando rosto a essa nova classe média que começa a surgir no país. Logo, vê que fez a escolha certa em termo de trabalho, mas não se dá conta que, aos poucos, passa a fazer parte de uma engrenagem opressiva e alienante de uma sociedade que ele não compreende muito bem. Por isso mesmo, se deixa ser engolido por esse monstro que não pára de crescer e, na condição de pai de família, se mata de trabalhar, se frustrando e se sentido insatisfeito com a vida que escolheu. Até não agüentar mais e pirar.

“Vou dar o fora, vou embora”, diz desesperado para a mulher Luciana (Eva Wilma).

A narrativa propositalmente fragmentada e confusa, que espelha de forma notável a personalidade angustiante e indecisa de Carlos, é cheia de flashbacks e maneirismos técnicos que flertam com a vanguarda do cinema que estava surgindo naquele momento no exterior e no Brasil – nouvelle vague e Cinema Novo. Senti um clima de Antonioni no ar também, sobretudo na dificuldade em que os personagens têm de se relacionar, de se fazer entender. Uma passagem emblemática dessa sensação está na cena do museu, quando Carlos e uma de suas amantes, a sensível, melancólica e triste Hilda (Ana Esmeralda), discute sobre os horrores da guerra retratados na obra de Lasar Segall sem chegarem a um denominador comum.

Morto precocemente aos 39 anos, após um desastre de carro, em 1976, Luís Sérgio Person, que também seguiu carreira de publicitário e chegou a ser dono de Teatro na Rua Augusta, traça aqui um painel perturbador e trágico da opressão do sistema sobre o homem. É esmagadora a solidão dos personagens em meio a imensidão e agitação de grande cidade.

“O filme é um libelo contra alguns dos mecanismos que fazem do homem, em vez de ser livre e capaz de decisões, o dente de uma engrenagem da qual, frequentemente, ele nem chega a ter conhecimento”, comentou o diretor.

* Este texto foi escrito ao som de: Nowhere (Ride – 1990)

Ride

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