Diretores – Sergei Eisenstein

O meticuloso cineasta analisando um de seus seus preciosos fotograma: o segredo está na montagem

O cineasta analisando um de seus preciosos fotograma: o segredo está na montagem

Muitos podem não ter visto ainda o revolucionário filme O Encouraçado Potemkin, obra-prima de Eisenstein que, durante um longo período, ostentou a coroa de o maior filme de todos os tempos, mas com certeza conhece a famosa cena das escadarias de Odessa, imortalizada, sobretudo, pela marcante sequência-homenagem de Os intocáveis, impagável filme de gângster de Brian de Palma. A grande ironia de tudo isso é que o massacre no famoso ponto turístico russo nunca aconteceu. Daí a magia e o encantamento, mas mais do que tudo, a forma das imagens no cinema.

Um visionário da sétima arte, Eisenstein sempre terá seu nome associado ao surgimento da vanguarda artística na Rússia e com seu talento singular e metódico, provaria que arte e política sim, podem andar de mãos dadas, quando discutidas, assimiladas e materializadas de forma apaixonadamente ideológica.

O cineasta russo não foi, com certeza, o grande inventor da edição no cinema, mas influenciou toda uma leva de jovens e pioneiros diretores com sua inovadora e intelectual técnica de montagem, no qual defendia que o impacto dos filmes não se devia ao suave desenrolar das imagens, mas à sua justaposição.

Um pouco datados fora do contexto político, os filmes de Eisenstein, assim como a do compatriota Dziga Vertov (1896 – 1954), hoje são instigantes peças de estudos acadêmicos graças à anarquia técnica com que foram realizados. Pela beleza visual, ousadia narrativa e urgência temática, se tornaram, com todo o mérito, em verdadeiros filmes de arte.

Top Five – Sergei EisensteinEncouraçado Potemkin

O Encouraçado Potemkin (1925) – Encomendado por Lênin para comemorar os 20 anos do levante, o filme serviu de prisma revolucionário para as grandes revoltas mundiais, proibido de exibição em países como EUA, Reino Unido, França e Brasil durante a Guerra Fria. O próprio Stálin, temendo a força mobilizadora da fita, o proibiu quando as revoltas contra o partido comunista começaram a surgir. Algumas passagens são antológicas. Além da sequência da escadaria, cito a cena do café da manhã dos marinheiros cheios de nojentas larvas.

Alexandre Nevski (1938) – Quando o filme foi realizado, o espectro de Hitler assombrava a Europa, de modo que a história do grande líder russo que derrotou o exército dos Cavaleiros Teutônicos no século 13, surgiu como obra premonitória. Norteado por narrativa maniqueísta e exageradamente operística, a fita impressiona pela beleza plástica e eficiência visual, sobretudo nas cenas de guerra, destaque para o embate na neve.

A greve (1924) – Primeiro filme de Eisenstein realizado então com 26 anos, o filme denuncia a relação opressora entre patrões e empregados, com o diretor humanizando, até com certo toque de humor, os dramas dos trabalhadores da grande mãe Rússia. Há uma sequência do matadouro que relaciona a condição dessa classe perturbadora.

Outubro (1928) – Realizado para comemorar os 10 anos da Revolução Soviética de 1917, o filme narra os acontecimentos que levaram os bolcheviques ao poder, com a tomada do Palácio de Inverno por Lênin. É emocionante ver imagens de arquivos do grande líder da revolução entre uma cena e outra.

Ivan, o terrível (1944-1945) – Épico sobre o maior tirano da história da Rússia, o filme teria três partes, mas Eisenstein, fulminado por infarto aos 50 anos de idade, deixaria a obra inacabada. O excesso de dramaticidade das cenas cansa um pouco o espectador, mas a fita reserva momentos marcantes, como a perturbadora sombra do Czar perambulando pelas paredes de seu frio castelo ou os seus momentos de loucura realçados numa fotografia colorida ofuscante.

* Este texto foi escrito ao som de: Don’t believe the truth (Oasis – 2005)

Oasis - Don't believe the truth

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