As aventuras de Alice no país das maravilhas

Charles Lutwidge Dodson ou Lewis Carroll, numa foto com a verdadeira Alice

Lewis Carroll, numa foto com a verdadeira Alice

Minha amiga Luísa que me perdoa, mas vou revelar uma coisa para vocês cabeluda e aterradora: eu nunca tinha lido o clássico infantil Alice no país das maravilhas. Gozado, mas a história da menina loira que se perde num mundo de fantasia e loucuras está tão impregnada em nosso inconsciente por meio de filmes, adaptações teatrais e contações, que sempre achei que conhecia a trama do começo ao fim. Não conhecia. Mas me dei conta disso outro dia quando levei minha sobrinha para ver uma peça sobre o texto escrito por Lewis Carroll publicada em 1865. Tinha personagens e passagens que desconhecia completamente.

Assim, humildemente fui até a minha estante mágica e saquei de lá duas edições do livro que tenho. Uma bem antiga, acho que dos anos 70, reeditada recentemente pela Companhia Editora Nacional e, por sinal, bem chatinha. Outra lançada em 2007 com tradução do diretor gaúcho, Jorge Furtado e Liziane Kugland. Bem, quem me conhece sabe que, até por tabela afetiva, sensorial e cultural, escolhi a segunda, que vou lá pelo capítulo 7, quando Alice, depois de muitas “loucuras”, toma um chá bem doido com o Chapeleiro Maluco. As ilustrações bacanas são de Mariana Newlands.

Uma obra-prima do gênero, Alice no país das maravilhas é, como realça os autores na contracapa da edição, um livro escrito para crianças inglesas do século 19. Traduzido para mais de 125 línguas, nasceu de um episódio bucólico e pueril. Durante um passeio de barco pelo rio Tâmisa, Charles Lutwidge Dodson – nome verdadeiro de Lewis Carroll – improvisou um enredo sem pé nem cabeça para as irmãs Lorina, Edith e Alice, filhas de um figurão da Universidade de Oxford. Boa parte da trama satírica são paródias cujos personagens são espelhados em amigos e desafetos do autor. As gurias gostaram tanto da história que insistiram que Charles a publicasse e foi o que ele fez. O resto é lenda.

Cheio de palavras, trocadilhos e enigmas inerentes à realidade e cultura inglesas do século Alice - Monteiro Lobato19, o livro conseguiu, de forma mágica e surpreendente, adentrar nas profundezas sensíveis e ingênuas da cabeça infantil, despertando as mais incríveis reações. Só as crianças entendem a história da menina Alice da forma como tem que ser. Restam aos adultos decodificar, esse emaranhado de simbologias malucas e surrealistas. Daí a associação e referências com viagens alucinógenas, drogas e psicodelia que rendeu pelo menos um clássico da música: a bela e viajante Lucy in the Sky with Diamonds, de Lennon & McCartney. Beom, nós sabemos que bem mais Lennon do que McCartney.

Preocupados em transpor a realidade elisabetana da trama para os dias de hoje, o cineasta Jorge Furtado e Liziane Kugland trabalharam então numa tradução que contextualizasse o leitor infantil brasileiro com as nossas referências culturais. Daí os versos de Vinícius de Morais e tradicionais cantigas populares que muitos de nós crescemos ouvindo. “Há boas traduções brasileiras feitas para adultos que querem estudar seriamente o livro e há centenas de versões reduzidas da história, feitas para criancinhas. Esta não é nem uma coisa nem outra. É uma tradução do texto integral de Caroll, feita para crianças brasileiras do século 21”, explicam os autores.

Bem, gosto de ler livros infantis. Gosto ainda mais de ler livros infantis para as minhas sobrinhas. Mas toda vez que me lembro de Alice no país das maravilhas, me lembro daquela garota sádica para quem declarei meu amor e ela mandou cortar minha cabeça:

– Cortem-na cabeça! Cortem-na cabeça!

Bem, ela não cortou minha cabeça, mas machucou fundo o meu coração…

* Este texto foi escrito ao som de: Forever changes (Love – 1967)

Forever changes

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