Diretores – Alain Resnais

A idealização do amor fugaz entre dois mundos na visão abstrata e poética do cineasta

A idealização do amor fugaz entre dois mundos na visão abstrata e poética do cineasta

Se o cinema algum dia teve um inconsciente ele se chama Alain Resnais. Muitas vezes cerebral e enigmático, ou mesmo hermético, o diretor francês que foi um dos pioneiros da nouvelle vague incomodou e despertou interesses dúbios, confusos e fascinantes, para o bem ou para o mal, na crítica e espectador. De modo que uma coisa é certa com relação a esse esteta da imagem morto recentemente: não há como sair ileso de uma sessão de seus filmes. Eu mesmo até hoje tento decodificar alguns de seus trabalhos em minha memória e, tudo que consigo sentir são sensações do infinito, seja lá o que isso signifique.

Comecei o texto falando de inconsciente e me lembrei agora de duas palavrinhas mágicas necessárias todas as vezes que o cineasta estiver em voga: memória e tempo. Sim, porque poucos diretores filmaram com tamanha propriedade e estilo esses dois temas abstratos. Colagens oníricas, fantasias do inconsciente, sofisticação visual plástica, personagens-esfinges conduzidos por narrativas sofisticadas não-linear. Elementos imprescindíveis de um cinema labiríntico onde sensações e impressões marcam nossa alma, de forma nostálgica e deliciosa.

Top Five – Alain ResnaisAmores parisienses

Hiroshima, mon amour (1959) – A história de amor entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês nos escombros de uma cidade devastada pelos horrores da guerra. Com texto da escritora Marguerite Duras, o filme trabalha com lirismo apaixonante, opostos como duas culturas diferentes, presente e passado, sonho e inconsciente, culpa e incertezas. Uma daquelas histórias em que o amor fugaz vale à pena.

O ano passado passado em Marienbad (1961) – Num imenso e luxuoso palácio barroco repletos de corredores sem fins e quartos amplos, dois personagens fantasmagóricos e soturnos se perdem num labirinto de enigmas onde passado e presente, sonho e realidade, vida e morte se confundem liricamente. Vi o filme uma única vez no CCBB para numa mais esquecer, não entendi muita coisa, mas amei intensamente a natureza plástica da fita com suas lajes de granito, estátuas com alma e jardins sonhos.

Meu tio da América (1980) – A ironia do título que na fita se resume a uma única frase é só a ponta de um iceberg de experiência científica-experimental-narrativa sobre a trajetória de três personagens e suas transformações sofridas pela influencia do ambiente em que vivem. “Ratos e homens. Qual é a diferença?”, ironiza o narrador.

Amores parisienses (1997) – Para um cinéfilo que sempre amou os musicais, essa comédia musical norteada por trechos de grandes clássicos da canção francesa – que vai de Edith Piaf a Charles Aznavour -, é um sundae. A trama se concentra nos encontros e desencontros amorosos e profissionais de duas irmãs de vida, estilos e temperamentos diferentes. A charmosa atriz Sabine Azéma é uma delícia em cena com seu cabelo chanel.

Medos privados em lugares públicos (2006) – Confesso que quando vi o filme me assustei um pouco com o tom de fábula e cenários propositalmente fake propostos pelo diretor, mas quando você embarca com alma nesse conto amargo sobre solidão urbana a pseudosimbologia cênica e narrativa da trama é o de menos.

* Este texto foi escrito ao som de: La bohéme (Charles Aznavour – 1966)

Charles Aznavour

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