O outro lado da rua (2004)

Bela e melancólica fotografia do filme inspirada nas pinturas de Edward Hopper

Bela e melancólica fotografia do filme inspirada nas pinturas de Edward Hopper

Clássico de Hitchcock filmado em 1954, Janela indiscreta – uma das minhas fitas preferidas dirigida pelo mestre do suspense – já rendeu várias homenagens no cinema e serviu de prisma para outros trabalhos nas telonas.O outro lado da rua, estreia do roteirista Marcos Bernstein como diretor, é um deles. Lembro que na época do lançamento do filme a crítica especializada descascou o filme e eu fui um dos únicos que saí em defesa desse drama de suspense intimista melancólico.

Na trama, Fernanda Montenegro é Regina, uma viúva solitária que amarga a solidão depois de uma separação traumática e relação ruidosa com o filho, pai do neto que uma das fontes de sua alegria. A outra é, na aparente falta do que fazer, passar o tempo bisbilhotando a vida alheia da janela do seu apartamento. Binóculos em punho ela tem lugar cativo e estratégico na varanda principal da sala e assim vai levando as coisas até que um dia vê algo suspeito do outro lado da rua.

É o ponto de partida para o espectador descobrir mais detalhes da vida dupla que leva com o codinome de Branca de Neve, alcaguete oficial da polícia. “Eu acredito nas coisas que vejo”, diz orgulhosa.

Mas aos poucos ela percebe que o juiz aposentado Camargo (Raul Cortez), de suspeito deO outro lado da rua um crime passa a vítima de um erro e é desse impasse que nasce uma relação afetiva que coloca em evidência o amor na terceira idade. “O homem envelhece melhor”, observa ela, com certo amargor no ar.

A narrativa leve construída sob finas camadas de delicadeza encontra ressonância na melancólica fotografia que tem na obra do pintor norte-americano Edward Hopper – um dos meus heróis das artes-plásticas -, como referência. É ela que, assim como nas pinturas do artista, irá acentuar o clima de desolação e solidão dos personagens. Sobretudo de dona Regina, uma senhora amarga que o tempo todo tenta fingir que as coisas estão bem.

Do ponto de vista da encenação e atuação o filme realça a situação de abandono da personagem em dois momentos marcantes do filme. Um, quando ela desesperada, depois de presenciar um assalto, pega o celular e desabafa ligando para o fixo de casa, conversando com o seu próprio fantasma. O outro, em sequência icônica, quando o diretor imagina a solidão que ela vive a colocando, sozinha, no meio do nada de uma rua deserta de Copacabana. Uma cena que foi realizada numa rápida manhã de feriado na Cidade Maravilhosa.

Daí vem a cena de amor entre os protagonistas que me levou, imediatamente, à passagem do clássico do Cinema Novo, Chuvas de verão(1978) do mestre Cacá Diegues, quando os atores Jofre Soares e Miriam Rios rolam no chão nus, crivados de paixão. Como se vê, na há idade para o desejo.

* Este texto foi escrito ao som de: Let it Bleed (The Rolling Stones – 1969)

Lei it bleed

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s