A navalha na carne (1969)

Jece Valadão e Glauce Rocha expondo desprezos e amor bandido a partir de texto de Plínio Marcos

Jece Valadão e Glauce Rocha, em adaptação de Plínio Marcos de 1969

E aqueles que achavam o texto de Nelson Rodrigues pornográfico, eram porque, com certeza, não conheciam então o dramaturgo de Santos (SP), Plínio Marcos. E, no fundo, no fundo, não é que a dramaturgia ou o universo desses dois dramaturgos de estilos e escolas diferentes fossem indecentes. E sim porque eles retratavam um lado obscuro, outside da sociedade que ninguém queria saber ou fingia que não existia. Daí o estranhamento e a repulsa.

Escrito para o teatro em 1967 por Plínio Marcos, A navalha na carne é um esporro de imoralidade social. Conta a história do cafetão Vado e da prostituta Neuza Sueli, que arrumam o maior barraco no quarto de pensão onde vivem depois que o veado Veludo rouba uma grana que estava em cima de um criado do casal. Pronto, o episódio é o ponto de partida para um turbilhão de insultos e desabafos indecentes degradantes que colocam em evidência a condição sujam em que os personagens estão metidos.

Censurado na época de sua montagem, a peça logo ganhou uma forma alternativa de divulgação com a reprodução fotográfica do texto editada pelo jornalista Pedro Bandeira – conhecido autor de romances infanto-juvenis. Tenho uma edição fac-símile dessa obra editada pela Azougue Editorial em 2005 em minha estante mágica. O que me motivou, de certa forma, prestar atenção no Canal Brasil, outro dia, numa adaptação da peça para as telonas de 1969 do diretor Braz Chediak.

A navalha na carneO filme é uma dessas delícias obscuras de nosso underground cinematográfico que a gente só consegue ver no Canal Brasil. Produzido por Jece Valadão, na pele do cafajeste Vado, traz ainda no elenco Glauce Rocha no elenco, como a prostituta Neuza Sueli, e Emiliano Queiróz (o eterno Dirceu Borboleta), vivendo a bicha Veludo. Enfurnados em um cortiço imundo, eles se maltratam física e verbalmente, até chegaram ao esgoto de suas existências. “Você é uma bicha porca imunda”, diz Vado, enfurecido com Veludo, o suspeito.

Norteado por palavrões e diálogos sujos, cenas visualmente incômodas, com um boquete improvisado com um cigarro de maconha, o filme se concentra quase o tempo todo dentro desse quarto fétido sem luz e perspectiva. A fotografia do filme é construída a partir da penumbra do descaso. Mas antes, o diretor testa a paciência do espectador de forma sóbria, com quase trinta minutos de imagens sem diálogos, apresentando os personagens e sua triste realidade para o espectador.

“Já existe a penicilina, vovó! Saio limpo fácil, fácil”, diz o personagem de Jece Valadão, depois que o silêncio narrativo é quebrado, com sabor sádico, o amar platônico da prostituta que o ama cegamente. “Você é uma velha podre e nojenta”, pisoteia.

Mineiro de Três corações, o diretor Braz Chediak ainda adaptaria para as telas, em 1971, outro texto de Plínio Marcos: Dois perdidos numa noite suja. Mais tarde, iria estourar nas bilheterias do cinema nacional com duas versões cinematográficas de obras de outro maldito da literatura, o dramaturgo Nelson Rodrigues, com os sucessos: Perdoa-me por me traíres e Álbum de família. Há artistas que têm vocação para o maldito.

Depois de ver esse filme fiquei com vontade de ver, no youtube, o remake de Neville D’Almeida com a Vera Fisher no papel da prostituta desprezada pelo gigolô.

* Este texto foi escrito ao som de: Jards Macalé (1972)

Jards Macalé

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